quarta-feira, 31 de outubro de 2018

X - FUGIR À MORTE TODOS OS DIAS CANSA – FILHOS!

Os filhos são tudo. E não são nada. São tudo porque chegam de repente e ocupam tudo. O espaço que estava disponível para eles, e ainda aquele que eles oportunamente preenchem, empurrando daqui e dali. Não são nada porque assim como chegam também desaparecem, e quase sempre com os vadios dos amig@s e d@s namorad@s. Levam o dinheiro da nossa carteira, e as chaves do nosso carro e com sorte aparecem para tomar banho. Sabemos que passaram por casa por causa da loiça, dos pêlos, e da roupa suja espalhados pela casa.  
Os filhos revelam o que há em nós, o melhor e o pior. Os nossos medos, a nossa paciência, a capacidade de perdoar e também os nossos limites.
E começa tudo no princípio dos princípios… ainda na maternidade quando nos dizem “ele não quer sair, faça força” ou então quando dizem “ele já está com a cabeça de fora, não respire!”. Andámos a ver o filme durante nove meses, mas é naquele momento que descobrimos quem é que, no final, terá o poder na mão. Quem é que vai mandar, e garantidamente não vamos ser nós….  
A vida torna-se um pesadelo quando somos apanhados no papel de pais. Está tudo estragado. A vida acabou. Os amigos desaparecem. As noites são longas e não são ao som de rock n’rol. O álcool é proibido. O sexo selvagem é um mito. A vida sem horários ou rotinas acabou-se. E é neste momento que temos que pensar como sobreviver ao fim de tudo. Ao fim da vida como a conhecíamos.
Sabem quando têm uma dor-de-cabeça e dizem “vou descansar um pouco para ver se fico melhor!”, ou quando ficamos insuportáveis porque não tomámos o pequeno-almoço às horas que queríamos?, ou quando não fazemos o jantar porque não nos apetece cozinhar? Ou quando intervalamos, um dia inteiro, ora na cama, ora no sofá, sem fazer nada? Passar um dia no cinema? Ler um livro num ápice? Conhecem esta sensação de não ter nada programado? Esses dias, esses maravilhosos dias. Onde estão eles? Onde ficaram?
ESSES DIAS ACABARAM!
ACABOU A PRAIA SEM HORAS, SEM SACOS, SEM COMIDA, SEM CHAPÉU-DE-SOL!
ACABARAM-SE OS BANHOS RELAXANTES!
ACABOU-SE O SEXO ESPONTÂNEO!
A VIDA ACABOU…
Como a conhecíamos…
A vida fica ainda pior, quando se é “a mãe” na relação. Quando tudo depende da mãe. A roupa, a loiça, a comida, o bebé e até o animal da estimação. As mães não sabem o que é planear porque o imprevisto dá voltas ao planeamento. Tenho para mim que todas as mães que conseguem sair de casa vestidas são mulheres felizes, e sem nódoas ou bolçado, essas são as verdadeiras mulheres abençoadas!
Ser “o pai” na relação é estatuto, é conseguir sair de casa quando apetece e com banho tomado. Sair às horas que precisa. Conseguir ouvir as notícias e pensar sobre elas. Ser capaz de dormir uma noite inteira sem interrupções.
E como tudo na vida, ser “o pai” ou “a mãe” na relação não depende do género, depende da atitude!  
OS PRIMEIROS TRÊS MESES
Dizem os livros que os bebés comem de 3 em 3 horas e dormem a maior parte do tempo. Alguém informou os bebés que é isto que se espera deles?
A maior parte do tempo os bebés andam perdidos, porque não viram essas regras em lado nenhum, e depois como ainda não se sabem explicar choram, e choram, e choram. E quem é que suporta esta confusão? A Mãe da relação! Porque o Pai da relação dorme que nem uma pedra!
Sobrevivemos aos nossos pais, ao Jojó, a maus cortes de cabelo e aos chumaços, à música techno, a questão é saber se conseguimos sobreviver a estes seres incríveis, o pai e o bebé.


Combinei sair com a Rita e com os nossos bebés. Combinamos tudo para sair de casa ao mesmo tempo.
Banho tomado? – Sim
Bebés mamados? Sim
Roupa vestida? Sim
Sapatos nos pés? Sim
Malas, sacos, e alcofas prontas? Sim
Tudo pronto para sair de casa.
Espera, que cheiro é este este que vem do bebé? Que barulho foi este?
E toca a recomeçar tudo porque o bebé lembrou-se de fazer o cocó do mês!

Três horas depois lá nos encontramos, ambas parecíamos medicadas, sedadas, anestesiadas. Estávamos péssimas! A primeira coisa que a Rita me disse foi: “Fecha a braguilha.”
A segunda coisa que disse foi: “Já não chegava não poder beber álcool, agora não posso beber café… parece que faz gases.”;
A terceira: “sabias que existem sites onde encomendas comida e que a levam a casa?” Quarta: “tens feito os exercícios do períneo?”
Sem ter conseguido responder a uma única pergunta feita, ela avançava impiedosamente para a pergunta seguinte: “ Sabes o que resulta? Para conseguir que o bebé me deixe fazer alguma coisa? Ligar o aspirador ou o secador do cabelo!   
E antes que ela despachasse a próxima questão eu disse: “Rita há quanto tempo não dormes?!”
Ela respondeu: “dormir? Mas dormir como? Dormir deitada na cama? Sentada no sofá? Em pé? No chão? Na mesa? Na rua? A conduzir? Dormir sozinha? Dormir como? Sabes que mais? Nunca me deixas falar, vou embora. Falamos quando estiveres mais bem-disposta!”
E ficamos assim, acreditando, em silêncio, que iríamos sobreviver!

OS SEGUNDOS TRÊS MESES
Já desistimos de combinar ou planear. Trocamos o sujeito e o verbo na frase “se Deus quiser” por “se o Bebé deixar”.
O que sabemos, neste momento, é que estamos nas mãos deles. Aqueles sorrisos matreiros já nos convenceram e agora é rezar para que eles não nos façam muito mal.
Continuamos sem conseguir tomar banho e sem dormir, mas já não nos importamos. Nesta fase temos mais para limpar porque eles começam a comer as primeiras sopas e adoram mexer nela e depois passam a sua mão em todas as superfícies, planas, inclinadas e humanas, às vezes despejam-na outras vezes cospem-na. Já me aconteceu perguntarem o que tenho no cabelo e antes de dar a reposta pensar quais foram os ingredientes da sopa.
E com as primeiras comidas os cocós ficam insuportavelmente mal-cheirosos. E apesar disto, as conversas das mães continuam a ser sobre o cocó. A cor, a consistência e a frequência.
 Os dentes começam a nascer, e se não nascerem nesta altura não se preocupem, eles vão acabar por nascer e vocês irão sentir esse crescimento na vossa carne e pele. Mas vão por mim quanto mais tarde melhor! Os dentes, a fala, e as inconveniências.

DEPOIS DOS SEGUNDOS TRÊS MESES
Vem a pressa de andar, de falar, de correr, de pintar, de cantar, de contar….
E acabou-se o pouco sossego que ainda tínhamos!
Nesta altura regredimos na linha da evolução e deixamos de andar erectus para andar curvados. Curvados para os segurar, para brincar, para apanhar as coisas que deixam desarrumadas, para limpar todas as superfícies que eles sujam. Curvados porque a vida está a dar-nos uma lição.
Depois vêm as birras, as chantagens, as negociações, o drama, as manias, os gritos e a escolha de má música. Tudo motivos para deixarmos de lutar pela ilusão de que temos uma vida, não temos. A nossa vida passou a ser deles.


Eu e a Rita voltámos a sair. Mas nas primeiras vezes que saímos a Rita e eu falávamos do nosso dia-a-dia, das rotinas, dos horários. As nossas saídas eram uma seca, e percebemos que a nossa amizade estava por um fio. E ponderamos falar sobre o que era mais importante na vida:
- Rita não consigo falar da actualidade porque só há pouco tempo descobri que o Ramalho Eanes não é o Presidente da República! Queres falar sobre o quê?
- Desde que não falemos de cocó e roupa para crianças pode ser qualquer coisa.
- Estou a pensar comprar a Bimby…
- Não, também não podes falar disso!
- Rita a birra que ele fez ontem para tomar banho?
- Estou a levantar-me, dois minutos e desapareço!
- Contei-te que encomendei uns livros na Amazon e que foi um rapaz que os foi entregar? Giro, Rita, muito giro. Ele fez-me perguntas sobre os livros, acreditas?
A Rita abraçou-me e disse: “nós vamos conseguir! Ainda há esperança!” 

O que acontece com as relações quando aparecem as crianças tem muito que ver com as crianças e com os seus progenitores. Costumo dizer que o melhor do mundo são as crianças e o pior do mundo são os pais das crianças.  
Da minha curta, mas intensa, experiência a fugir da morte apercebi-me de que com filhos, descobrimos que a bipolaridade não é uma doença; que podemos estar sempre cansados sem estarmos com anemia; que não existem tempos mortos; e que a chuva pode fazer bem às plantações, mas não faz bem às relações.
Passo a explicar,
1) a questão da bipolaridade, acordamos a pensar em chegar rapidamente ao trabalho para descansar (Querido Chefe não sei se acompanha este manual, e desculpe a forma como vou colocar isto, mas qualquer trabalho é canja perto de uma birra, ou amuo de miúdos logo pela manhã), e até chegar a esse momento já chorámos, gritámos, rimos, mudámos de roupa, limpámos o leite derramado em cima da mesa, pusemos alguém de castigo… e ainda só passaram 30 minutos desde que acordámos. E somos sempre a mesma pessoa, mas a oscilar entre extremos.
Isto não fica melhor com os anos, porque se há coisa que já aprendi é que amuos e birras pioram com o crescimento. Deviam conhecer alguns dos adultos com quem confraternizo;
2) O cansaço instala-se e quando nos apercebemos acabámos de concordar que sim, mas não sabemos no quê, e podemos ter concordado em ser cúmplices no assassinato de alguém. O cansaço leva-nos ao desespero. Só queremos deixar de ouvir aquela voz ecoando: ”Posso mãe? Posso?”
Leva-nos a adormecer nos sítios mais estranhos e nas posições mais incómodas. A cair para o lado exaustas. E quando estamos neste ponto não há medicação que nos salve. Precisamos de arranjar alguém em quem despejar esse cansaço e a frustração? Onde é que está o pai afinal, quando mais precisamos dele?

3) Porque só de pensar que o mau tempo nos vai obrigar a ficar em casa, e que eles irão gastar as suas energias em casa, a desarrumar, a gritar, e a exigir… só de pensar… fico com arrepios e suores frios!
Obviamente que com a bipolaridade ao rubro não existem espaços para tempos mortos. A nossa vida é uma montanha russa, com livre acesso ao choro, às queixinhas, e às exigências.
Rapidamente deixamos de ter vida própria para termos que viver a vida deles. Festas, atividades, dias em casa de amigos, saídas, trabalhos de grupo, até ao dia em que estes ingratos já não nos querem por perto.
Descobrimos a poluição sonora que hoje se faz e que os nossos filhos andam a ouvir. As roupas que eles querem usar e as cores das mesmas. Ouvimos, sem qualquer remorso, que nunca serão do Futebol Clube do Porto. E por aí adiante… Desgosto atrás de desgosto. Como sobreviver?
Não é fácil.
Falei com a Rita sobre diversas preocupações que me assolavam:
 “Rita como é que vou educar uma criança?”
E ela tranquilizou-me: “é para isso que as Escolas servem!”
Eu: “ Rita e se esta criança não gostar de mim?”
Rita: “ é possível, conheço muitas pessoas que não te suportam, mas nessa altura já podes beber!
Eu: “Rita acho que nunca irei a aniversários de crianças. E não é porque não me convidem é porque não costuma haver álcool nessas festas…”
Rita: “Estás parva? Esquece o álcool, foca-te nas vistas! Já viste a quantidade de homens giros que circulam por lá?”
Eu: Não, nunca reparei! Aliás esses adultos assustam-me, mais do que os dentes num recém-nascido!

Para sobreviver são necessárias três coisas:
Rapidez, paciência e sentido de humor! Basicamente tudo o que temos vindo a treinar.
Rápidas a segurar tudo o que pode cair: bebés, biberons, copos, sacos, pessoas, expectativas, surpresas, fraldas, calças, cabelo, dentes, peito, entre outras coisas. Rápidas a recuperar de doenças, desgostos, desilusões, festas. Rápidas a pensar, a responder, a defender, e a arrancar.
Paciência porque enquanto “o pau vai e vem folgam as costas”. Porque o melhor conselheiro continua a ser o tempo. Paciência porque sem ela deixamos de fugir à morte e acabamos por falecer ou padecer de uma maleita que, até pode nem nos levar a esticar o pernil, pode somente deixar-nos muito doentes e/ou muito sós.
Sentido de humor porque rir continua a ser um excelente remédio. Rir porque o bebé é o oposto daquilo que imaginávamos; rir porque já dissemos várias vezes “se fosse comigo” e nunca esperámos que realmente nos acontecesse. Rir porque não fomos o suficiente rápidas ou pacientes. Rir porque chorar não queima tantas calorias, nem mexe com tantos músculos.
E rir porque estes seres incríveis, os filhos, são uns sacanitas que nos dão cabo da cabeça, mas que nos enchem o coração, e aqui para nós, estes sacanitas até têm piada!

Vemo-nos no próximo mês!   

domingo, 30 de setembro de 2018

IX - FUGIR À MORTE TODOS OS DIAS CANSA – 9 MESES DEPOIS!

Ninguém que acredite na longevidade pode pensar que a maternidade/paternidade irá acrescentar anos de vida à sua existência.
Na maior parte das vezes as pessoas sobrevivem, mas a saúde mental vai-se para sempre.
Sim, como sobreviver à chegada de crianças sem álcool? Sem drogas?
Durante 9 meses a nossa vida, o nosso corpo, as nossas relações sociais sofrem transformações algumas irreparáveis. Sofrem-se duras e graves provações, alterações e privações.
Porque é que então alguém avança para isto? Porque é que não ficamos pelos companheiros de quatro patas ou com barbatanas?
Uma das explicações que vejo para cair nesta armadilha é, a meu ver, porque o ser humano não sabe ficar quieto!
Pois para aqueles que já se meteram nisso, ou andam a pensar experimentar, vou deixar aqui algumas dicas para sobreviverem aos nove meses sem perderem todos os amigos, mesmo aqueles que ninguém quer.

Existem muitas teorias sobre a forma de fazer bebés meninos ou meninas, há quem use botas, há quem coma frutos secos, há ainda quem se atreva em posições perigosas para a coluna, e no fim nada disso é preciso. Ora esqueçam tudo o que pensam que sabem, e leiam o que tenho para vos contar!    

PRIMEIRO MÊS – A CARTA
Por acidente ou de propósito alguém enviou A CARTA para a cegonha. O que se passa com A CARTA é que ou se escreve bem ou pode dar para o torto.
Letra legível, sem rasuras, indicações objetivas, não mais do que um parágrafo. E por favor nada de símbolos, as cegonhas não têm que conhecer os símbolos para o género feminino e masculino. Ponham-se com mariquices e depois queixem-se que não era bem aquilo que queriam.
Outra coisa, se A CARTA não for bem escrita às vezes pode não chegar ao destino, por isso é preciso continuar a praticar a caligrafia.
Se A CARTA chegou à cegonha, e se a mensagem foi bem escrita, o corpo vai começar a dar sinais.
Alguns dos sinais são: barriga grande, oscilação acentuada de humor, flatulência, azia, apetite incomensurável, e cansaço, isto nos homens.
Nas mulheres tudo igual, à exceção dos mamilos escuros e o desaparecimento da menstruação.

SEGUNDO MÊS – HORMONA’S PARTY
Foi um dos momentos mais assustadores da minha vida quando ao chegar perto da Rita a vi a chorar. Fiquei tão aflita. É que nem a mais cruel das cebolas arranca uma lágrima àquela miúda.
Perguntei: “Estás bem? Morreu alguém?”
Ela soluçava e apontava para a televisão. Na televisão aparecia a imagem de David Bowie. Soluçando ela dizia: “ELE MORREU!”   
E eu disse: “Rita ele morreu há um ano!”
E ela chorou ainda mais e disse-me “PÁRA, NÃO DIGAS ISSO, NÃO VÊS O QUANTO ME MAGOAS?”
Foi nesse momento que me apercebi que as hormonas são traiçoeiras. As hormonas estão ao mesmo nível do nosso inconsciente que durante algumas noites nos atraiçoa e nos deixa falar coisas que não confessaríamos mesmo que a nossa vida dependesse disso.
A nossa vida está nas mãos da progesterona e do estrogénio e como o próprio nome indica não estamos a falar de gajos bons para engatar!
O melhor é deixar fluir. Se for para chorar é para chorar, se for para comer é para comer, idem, idem, aspas, aspas para o gritar, bater ou vomitar.
Neste estado de graça é legítimo enjoar de tudo o que se faz com sacrifício. Aspirar, ver jogos do Benfica, preparar refeições, passar a ferro, depilação, pintar os cabelos brancos, cortar as unhas dos pés, estender meias, and so on…
Às grávidas pertence o comando da casa e da televisão!

TERCEIRO MÊS – GRÁVIDA, GORDA OU DOENTE?
Estes primeiros três meses são terríveis. Parece que estás grávida, mas ninguém se atreve a afirmar. Ninguém se levanta para dar te lugar no metro com medo de ofender.
Se se mostra a tímida barriga e dizemos que queremos o lugar, ou que temos prioridade, somos olhadas de lado e ainda ouvimos: “No meu tempo a gravidez não era doença!”
Descobre-se que a gravidez é talvez um dos desportos mais competitivos do mundo.
Tem que se competir com todas as mulheres que trabalharam até lhes rebentarem as águas, e quando estas rebentaram ainda limparam o chão. Competir com aquelas que não engordam. Competir com o feto para ainda conseguir ter alguma atenção. E até competir com o pai da criança para perceber qual dos dois está mais limitado pela gravidez.
Pergunto-me novamente por que razão alguém que quer ter uma vida longa e saudável se sujeita a isto? E se a vossa explicação for “para sair da monotonia”, até pode ser um motivo válido porque a monotonia acabou, mas valerá a pena?

QUARTO MÊS – ROUPA PARA GRÁVIDAS
Sem álcool, sem cintura e com a barriga a crescer alguma coisa boa teria que acontecer.
Não sei se já escrevi isto, mas eu e a Rita engravidámos em simultâneo. E vivemos 9 meses sem álcool em conjunto. E quando queríamos falar de todas as mudanças que estavam a ocorrer combinávamos fazê-lo à noite, no miradouro de Santa Catarina.
Privadas de álcool, mas ainda com o cérebro a funcionar sabíamos que ali poderíamos ter um “cheirinho” da nossa vida passada, aquela antes de engravidar, há 4 meses atrás, e que parecia que tinha sido há uma eternidade. Lá continuava tudo igual, havia erva e álcool, sabíamos que estávamos o mais próximo que podíamos do paraíso, durante estes nove meses.
E numa dessas noites perguntei: Rita sabes o que é que é bom nesta fase?
Ela: “Os orgasmos?!”
Eu: “Rita que disparate! Essas coisas deixam marcas nos bebés”.
Ela respirou fundo e disse: “Então… bom nesta fase… as mamas grandes?”
Eu já um pouco sem jeito disse: “Não Rita! Agora temos a desculpa perfeita para ir às compras FREQUENTEMENTE!
E ela respondeu: “Mas tu já viste a roupa que se vende para grávidas?”
E levou-me a uma loja dessas e à secção de roupa para grávida. Fui ver a roupa interior. Saí a correr. Fiquei deprimida. Cheguei a casa e chorei. O mundo como o tinha conhecido tinha acabado e só voltei às compras quando a criança já tinha dois anos.

QUINTO MÊS – OS EXAMES. 
Se não tivesse acontecido comigo e se alguém me dissesse que uma grávida tinha fazer exames, ou análises, ou ir a consultas com o/a obstetra TANTAS VEZES, eu diria que essa pessoa das três uma: ou tinha um “affair” com um dos profissionais de saúde que a acompanha; ou com todos eles; ou que a essa pessoa estava gravemente doente, a morrer mesmo.
Assim, e pela frequência com que isto acontece, seguem os meus melhores conselhos: se gostarem de meninas, escolham uma obstetra que vos compreenda e que seja sempre um prazer revisitar; se gostarem de meninos, escolham um obstetra que vos toque, e que vos mantenha ansiosas pela próxima consulta.
Quanto aos exames e análises evitem todos os que poderem mas, se os tiverem mesmo que fazer, aguentem! Façam tudo de uma só vez porque repetir exames dolorosos é muito estúpido.

SEXTO MÊS – MENINO OU MENINA?
Quando a barriga começa a ganhar terreno começamos a conhecer pessoas que sabem coisas, coisas que nem os médicos sabem, como por exemplo qual o sexo do feto, se é cabeludo, ou com quem ele é parecido. E isto tudo ainda com o bebé dentro da barriga.
Recorremos a coisas que sempre evitamos, tais como as jardineiras, sapatos rasos, babetes, roupa amarela, listas de nomes para bebés, almofadas para dormir, livros de auto-ajuda, entre outros.
O sinal de que estamos no declínio da sanidade mental é quando usamos a expressão: “menino ou menina? Não sabemos, mas o importante é que venha com saúde.” O que queremos dizer com isto é que se o bebé vier constipado o iremos devolver.
Os receios dos pais estão relacionados com a passagem pela Escola Secundária onde aprendemos que a vida é mais fácil para os bonitos. Mas este é um receio errado porque como já escrevi várias vezes o que conta é a atitude.
A partir deste momento quando perguntarem se é menino ou menina a resposta deve ser: “Não sei, mas desde que venha com atitude, é o que interessa.” 

SÉTIMO MÊS -PREPARAÇÃO PRÉ E PÓS PARTO.
Uma das partes mais difíceis da gravidez é conseguir chegar ao centro de preparação para o parto, de carro, e conseguir estacionar. Ter 3 espelhos no carro e nenhum deles servir para ver o nosso reflexo é frustrante. Ter cuidado connosco e com os outros é cansativo. Mas ultrapassar isto tudo com pés inchados, e uma barriga que chega antes das nossas mãos ao volante é tortuoso.
A Rita e eu fizemos o Curso de preparação “para o que lá vinha” juntas, e jurámos que nunca mais repetiríamos esta experiência. Na verdade o único curso que voltamos a fazer juntas foi o de enologia. O curso de preparação “para o que lá vinha” revelou diversas dificuldades, o estacionamento sem dúvida foi uma delas, mas conseguir um lugar sentado onde pudesse esticar as pernas também foi muito difícil. A competição com os homens, que também participavam nestes cursos, para ver qual de nós precisava de mais espaço para abrir as pernas deixou-me cheia de dúvidas. E como sempre perguntei à Rita: “Rita porque achas que aquele senhor que se senta ao meu lado precisa de tanto espaço?”
A Rita explicou-me que muitos homens não têm relações sexuais durante a gravidez e isso faz com que retenham muitos líquidos, e logo incham. Daí a dificuldade em fecharem as pernas.
Na sessão seguinte perguntei a um senhor se ele já se tinha conseguido aliviar, para saber se teria mais espaço para as minhas pernas, e desde esse dia que ninguém, além da Rita, se sentou ao meu lado. Consegui passar no curso, aliás aqui entre nós, mudar fraldas e dar banho a nenucos foram coisas que fiz desde sempre às minhas bonecas. 
Por outro lado desde que nasci que respiro, pelo que não sei de onde vem aquela obsessão com a respiração, é óbvio que temos que respirar.  

OITAVO MÊS – BABY SHOWER
Descobrem-se as coisas mais incríveis quando se está grávida, como por exemplo a festa de despedida da vida tal como a conhecíamos, mais conhecida por baby shower. É um daqueles momentos que tememos pela nossa sanidade mental e choramos, choramos muito. Não, não é de alegria, é de tristeza por não podermos beber.
Organizaram um baby shower para mim e para a Rita. A Rita acabou por ceder e aceitou ir, e foi buscar-me a casa. Disse de imediato: “se alguém pronunciar as palavras ‘mastite’, ‘incontinência’ ou ‘hemorroídas’ eu parto-lhe a cara.”
Eu disse: “Rita isto é sobre o bebé, não é sobre as nossas avós.” Ela abriu-me os olhos e arrancou, com o carro, em silêncio. Eu revi o nosso breve diálogo a pensar o que é que a poderia ter irritado. Mas ao chegarmos ao local de encontro, e ao assistir à decoração e a todas aquelas mulheres e crianças SUPER felizes, agarrei-me à Rita e chorei, chorámos. E sussurrei ao seu ouvido: “Onde é que nos meti? Desculpa-me!”
Alguém sabia que existem listas de prendas para o baby shower?
Vocês sabiam que existem roupas de betos para recém-nascidos?
Aprendi o significado correto de cueiro. E também tive oportunidade de aplicar aqueles ensinamentos para a vida: se não interessa deixa ir”, deixa ir os comentários que não te acrescentam nada como mãe, ou ser humano, deixa ir prendas que não queres, deixa ir a parvoíce. E ainda outro: “foca-te no que interessa”: o bolo de chocolate, o garçon moreno de olhos verdes, e garantir a qualidade da música de fundo!

NONO MÊS – ENTÃO MAS AINDA NÃO NASCEU?
Nono mês, 4 000 000 semanas, 1 tonelada e a criança ainda não nasceu. Noites mal dormidas, um corpo que se desconhece e ainda temos que ouvir a pergunta: “Então mas ainda não nasceu?”
E nessa altura pensamos que o planeta está superpovoado e que a nossa criança está a chegar e precisa de espaço e de um mundo com menos estupidez, imaginamos diferentes formas de matar alguém.
A resposta deveria ser: “Sim já nasceu, mas apeguei-me a esta barriga e a estes líquidos que não consigo deixá-los ir” ou “Não, ele está a evitar ao máximo conhecer certas pessoas”.
Descobre-se que todas as mulheres são mães, e que uma vez cá fora a nossa vida acabou como sempre a conhecemos, por isso não nos importamos que eles estejam cá dentro o tempo todo que for possível.
A cegonha nunca falha. Depois de avaliar as prioridades, as entregas são feitas. E depois disto a vida transforma-se.
Depois dos nove meses, ou em certos casos mais cedo, percebemos que todo o incómodo sentido foi a preparação para o que chegou. Depois disto, a conversa em semanas desaparece, os pontos caem, e 8 anos e 3 meses depois já conseguimos falar do parto sem fechar as pernas.

Nunca mais a vida vai ser a mesma. Mas sobre isso falamos a seguir.


Todos a respirar!
Inspira, expira! Inspira, expira!

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

VIII - FUGIR À MORTE TODOS OS DIAS CANSA – ENFERMIDADES

A doença entra na nossa vida da mesma forma que algumas pessoas o fazem, sem serem convidados. E como também acontece com essas pessoas, as doenças são na sua maioria chatas. Não têm noção de espaço e tempo. Fazem-me lembrar alguns namorados que tive e que acabei por ter que despachar. 


Diz a minha curta experiência de vida que o melhor é não criar oportunidades para que ela apareça, ou pior ainda, que se instale. 

Não se devem marcar consultas com médicos, homeopatas, osteopatas, curandeiros, endireitas, mecânicos, em resumo todos aqueles que nos possam pedir para nos despirmos, só porque sim. Saímos sempre de lá com um problema, e costuma ser um diferente daquele que nos queixamos. 

Entre as diferentes especialidades médicas existem uma que vos peço que se mantenham o mais distante possível. E não estou a falar de cirurgiões porque nesse caso já sabemos ao que vamos. Mantenham-se alertas junto de dentistas. E mais, se eventualmente estes profissionais vos pedirem para se despirem não só se devem manter distantes, como têm a minha anuência para chamar a polícia. 

Qual é a razão deste medo? 

Não conheço nenhuma história, com um dentista, com um final feliz. E se por acaso pertences ao reduzido grupo de pessoas que ainda têm os dentes do ciso FOGE, enquanto podes. 

Não sei o que é que lhes ensinam na escola, mas os dentes do ciso devem ser vistos como uma monocelha, e tem que ser arrancado e separado de nós, antes de se transformarem NAQUILO. E até hoje ninguém me soube explicar o que é “NAQUILO”. Mesmo os que arrancaram os dentes do ciso, e que apesar de ter sido há anos, ainda hoje quando recordam a experiência soltam uma gota de urina, e não é de contentamento. 

Sempre que o dentista faz um ponto de situação sobre o estado da minha boca, eu sinto-me uma personagem de um filme do Tarantino. 

Claro que devem haver episódios felizes com dentistas, eu é que os desconheço. 

Existem muitas coisas que desconheço, e que vou continuar ignorante em relação a essas coisas. Mas tudo bem. 

Descobri a verdade sobre outras tantas coisas que no fim resultaram em mais anos de vida… acho! 

Por exemplo na primeira vez que acampei com a Rita estava menstruada, e por isso não lavava a cabeça, assim como não comia laranjas. A Rita perguntou-me se o óleo que estava a pingar da minha franja não me atrapalhava. Eu expliquei-lhe “Rita quando se está menstruada não se pode lavar a cabeça, não faz bem à saúde. Não te preocupes a minha menstruação é de 7 dias e hoje já estamos no quinto dia”. 

A Rita olhou para mim, bebeu uma mini de uma golada só. Saiu e regressou dois dias depois. Trouxe consigo um livro que se chamava “ Coisas estúpidas que se dizem”. 

Não percebi bem porque me ofereceu o livro, mas uns meses depois enquanto tomava banho fiquei menstruada e não aconteceu nada. Não morri. Não cai de imediato. Nesse momento gritei “eureka” e preparei-me para ir correr nua para a rua, mas acabei por recuar porque quando consegui colocar o cálice menstrual, corretamente, já tinha perdido a vontade. 

Dizem-se muitas coisas sobre o que faz bem e o que faz mal, mas há algumas que não vale a pena reter, outras que devemos memorizar, tipo: deves ter cuidado a atravessar uma estrada ou quando usas um martelo. Quando manuseias um instrumento cortante e afiado não deves cair sobre ele. Não deves fazer misturas, não deves misturar branco, verde, tinto, rosé e outras bebidas. Deves prevenir-te em relação a doenças transmissíveis e por isso não deves partilhar quase nada, ou se partilhares que seja um pacote de pastilhas, ou um número de telemóvel. Deves evitar rapazes que se chamem Pedro, tenham mais de 1,80 e vivam perto do Amoreiras. Deves lavar os dentes todas as vezes que comeres. Deves beber muita água. Dizer asneiras. Xingar. Praguejar. Gritar. E rir, muito e muitas vezes, até perderes uma ou muitas gotas de xixi. 

Há quem diga que comer alho cru pela manhã faz bem à saúde, mas não é por isso que eu o faço. Aqui para nós, quem é que quer viver por muito tempo se estiver sozinha na vida? Quando o motivo dessa solidão é o terrível hálito a alho? 

Há quem diga que fazer sexo a seguir ao jantar pode causar a indigestão. E depois? Um copo de água, dizem, que pode fazer o mesmo e não é por isso que vamos morrer à sede. 

Temos que ser sábios nas nossas opções de vida. Queremos ter uma vida longa, mas não vazia. 

A doença não é bem-vinda, mas se vier que venha e que se vá rapidamente. Se for para ficar que seja uma verruga. Incomoda, sim, mas vive-se bem com ela. 

A doença passa pela vida de todos nós, na primeira ou na terceira pessoa do singular, e conforme a sua gravidade e o momento que acontece é para nós uma coisa boa ou má, apesar de enfraquecer sempre. 

Sim, é verdade que ficar doente pode ser uma coisa boa, quando passageira porque o estar doente chama, para nós, o mimo e a atenção, e estes nunca são demais. 

Durante a minha infância adorava estar doente, não retive se passava mal, mas recordo que comia sempre as minhas comidas favoritas e que passava o dia a descansar. E por gostar tanto de estar doente por diversas vezes encostei o termómetro à lâmpada quente, para fingir que estava febril. 

Depois veio a doença na adolescência, e aí era pura perda de tempo com tanta coisa a acontecer e ter que ficar em casa? Por causa de anginas?! Nem pensar! 

Com o passar dos anos é motivo para festejar quando se consegue sair de uma consulta médica sem a suspeita de que estamos muito doentes, muito pesados, muito parados ou muito deprimidos. 

É por isso que temos que celebrar a vida um dia de cada vez. 

A minha amiga Rita diz que a vida deve ser celebrada hora a hora e ela é sábia, e sempre que a vi vomitar foi pelos motivos certos, mau vinho ou bebé a caminho. 

Depois existe ainda o desafio que é cuidar de alguém que fica doente. Quando o doente é um homem a medicina não chega. Uma enfermeira tipo Soraia Chaves não é suficiente. Na verdade para restabelecer um homem doente o melhor é chamar um padre, um curandeiro, a sua mãe, e o treinador do Benfica. A doença num homem é desesperante, mas como tudo na vida não há mal que sempre dure. 

Quando se trata de uma criança a preocupação é proporcional à responsabilidade e tudo porque elas não vêm com livro de instruções, e também não se podem devolver à primeira falha. Há que aguentar e quando for possível logo se descansa. 

Descobrem-se algumas coisas enquanto estamos doentes, eu por exemplo, não me conseguia mexer e depois de dois dias sem dar noticias a Rita ligou-me e disse: “Espero que o motivo pelo teu silêncio esteja associado a um novo namorado. Não tens tempo nem de carregar o telemóvel.” 

E eu, cheia de dores, respondi: “Rita tenho dores” e ela respondeu: “estou a caminho”, quando a vi entrar com um saco na mão pensei na felicidade que tenho por ter alguém que irá cuidar de mim. Ela regressou da cozinha com duas minis fresquinhas e disse: “olha não trouxe nada para as dores porque isso já deves estar a tomar, mas não sabia se tinhas álcool suficiente.” 

E não é que ela tinha razão. À terceira estava tão relaxada que me esqueci das dores. 

Tenho vários receios: i) deixar de ouvir, a vida seria muito difícil viver sem música; ii) que o FC Porto não volte a vencer a Champios League; iii) que deixe de sentir a vida; iv) que o Ryan Gosling não me conheça; v) que deixe de rir, vi) que não consiga comprar uma mala Prada. 



E entre estes receios, habitam outros que causam sofrimento e dor, preocupa-me saber que eventualmente nos estamos a cansar, todos os dias, mais um pouco. 

Fiquemo-nos pela verruga, pela doença do futebol, afónicos de tanto chamar nomes ao árbitro, cegos pela simplicidade, loucos de paixão, cansados de fugir porque tocamos às campainhas de um prédio, e cheios de dores de tanto rir. 

No fim, espero que tudo acabe bem e no seu lugar, e daqui a muito tempo. 

Amén!