sexta-feira, 30 de novembro de 2018

XI- FUGIR À MORTE TODOS OS DIAS CANSA – A ternura dos "entas" e tais...


Esta é aquela fase da vida em que os filhos continuam a crescer em tamanho, em peso, e nos disparates.
Esta também é aquela fase da vida que os adultos têm menos paciência para MERDAS, mas como não querem esticar já o pernil puxam o autoclismo, mental ou verbalmente.   
Esta fase coincide com a abertura do baú “de desejos falhados ou por concretizar”. Momento em que pensamos que agora sim, agora é que vamos fazer AQUELE curso, aprender a tocar um instrumento, aprender a cantar, tirar a carta de condução, ou ainda uma formação para atores amadores, no meu caso é a altura para fazer um curso de sapateado.
É também, neste momento da vida, que pensamos que agora já podemos fazer AQUELA viagem, sozinha, com amig@s, ou a dois, porque os filhos já não querem fazer férias connosco. CERTO?
ERRADO!
Quando a prole ouve que é uma viagem à Patagónia não só nos DIZEM que nos vão acompanhar como também nos INFORMAM que já convidaram @s vadi@s d@s namorad@s para irem connosco… e descobrimos rapidamente que o aumento de pessoas no pacote turístico afinal só nos permite ir de férias até à Isla Cristina.

Pensamos também que vamos conseguir descansar mais porque eles já têm chave de casa e podem entrar e sair sem nos incomodar… mas os transportes estão caríssimos e se gastam no táxi não podem comprar álcool, e assim DECIDEM que o melhor é acordar um dos progenitores para proceder à recolha e distribuição da “carga”.
É também nesta fase que resolvemos que vamos sair mais, fazer jantares com amigos, saídas pela madrugada afora, cinema, teatro, passeios, passar tempo com os nossos amigos… e quando pegamos no telemóvel descobrimos que alguns dos nossos amigos ou mudaram de vida, ou de país, ou de casa, ou de sexo, ou padecem de alguma maleita e ainda outros deixaram-se apanhar pela figura da ceifa na mão!  

Não sei se se recordam da Rita, mas a Rita para além de porreira é uma inspiração. Uma das grandes virtudes que caracteriza a Rita, é a sua insensibilidade para merdas, não tem feitio para isso. Aliás nunca teve!
Há uns tempos atrás ligou-me e disse: “Temos que ajudar a J. Temos que sair com ela e animá-la porque o estupor do G. pediu-lhe um tempo. Eu dava-lhe com o tempo, e com tudo o que tivesse à mão, naquela careca. Sabes bem que nunca o suportei!”
Respondi “Claro que sim Rita, aliás sei eu e todos os convidados do casamento deles, onde gritaste: ó tiras a mão daí ou parto-te o braço! Ainda hoje se comenta isso!”
No fim do telefonema fiquei contente com a sua preocupação com a J.. Sempre ouvi que “ser mãe” torna as mulheres mais sensíveis e senti que a Rita estava nesse ponto, naquele de ouvir uma amiga que precisava de desabafar.
Combinamos fazer uma peregrinação pelo Bairro Alto, de tasca em tasca, porque precisávamos de recuperar a nossa fé. Eu cheguei com a J. e a Rita chegou mais tarde, mas ainda a tempo de apanhar a J. a chorar. A Rita pediu duas imperiais e bebeu-as uma atrás da outra. Perguntou se já tínhamos pedido alguma coisa e tratou de pedir por nós e de manter a mesa sempre cheia de álcool. E dizia para a J. “podes contar sempre comigo para te encher o copo” e assim o fez durante toda a noite. Às páginas tantas perguntei-lhe “Rita não queres ouvir o que ela tem para dizer? Não foi por isso que viemos?”
A Rita disse: “ Não, nós viemos porque esta é a desculpa perfeita para sair de casa e deixar os 4 putos com o pai. E o pai não pode contestar porque eu tenho o argumento certo do meu lado: “Olha o que ele lhe fez? Os homens não valem nada. Ficas a dever-me uma. E ai de ti que venhas com essa do “preciso de um tempo!”
As separações acontecem e por diferentes razões. Umas porque mudam de tendência sexual, outras porque se apaixonaram por outras pessoas, outras porque se apaixonaram por si e descobriram que merecem mais na vida, outras que começaram a cultivar um enorme apreço por sossego, e acrescentar a isto tudo a má qualidade dos jogos de futebol que em nada contribuem para alegrar o seio familiar.

Descobrimos que existem pessoas que não estão bem com a vida que têm e gostam de desportos radicais por isso arranjam namorad@s consideravelmente mais nov@s. Porque dizem ser men@s chat@s, são mais compreensiv@s e não procuram defeitos. E depois surge o dia em que começam a viver juntos e que por vergonha escondem como foram intrujad@s. E com os segundos casamentos vêm os segundos filhos. E aquela paz que havia cada quinzena com a guarda partilhada desaparece. Todos os fins-de-semana são fim-de-semana com crianças, volta tudo ao mesmo, mas com mais crianças e mais anos em cima. Menos cabelo, menos audição, menos dentes, menos visão, e menor desempenho.

E fazer uma árvore genológica com esta miscelânea de relações? Dá uma tese de doutoramento!


Sempre que saímos com amigos, e que os nossos amigos diziam: “agora comecei a correr” ou “agora inscrevi-me no ginásio” a Rita respondia: “então? andas a fugir do quê?” “O clima lá em casa está pesado?” ou “andas a malhar? Ou andam a malhar em ti?” Ficava um ambiente super-pesado com as insinuações que ela fazia que só se dissipava após a terceira imperial.
Um dia a Rita liga-me e diz: “adivinha o que eu descobri no bolso do B.?”
Eu: Droga?
Rita: “Também, aliás fumei e agora estou à espera que ele chegue a casa.”
Eu: Pedido de adesão para membro do Partido Social Teocrata?
Rita: Pior!
Eu: Um cartão de aficionado de tauromaquia.
Rita: Não chegas lá… pior do que isso! Um Cartão do Holmes Place. Acreditas que ele anda no Ginásio?
Tentei tranquilizar a Rita, a situação era grave e disse: “Deve haver uma explicação!”
No dia seguinte a Rita liga-me e diz: “Não passou de um susto, afinal o cartão não é dele, é de um amigo”
E este foi um assunto que nunca mais revisitámos!

Nesta fase da vida em que preferimos o mate ao brilho, precisamos de ter um ou vários médicos, começamos a responder “sim” às perguntas “toma alguma medicação?” e também ao “queixa-se de alguma coisa?”.
E quando nos fazem esta pergunta não querem saber se nos queixamos dos companheiros, dos filhos ou dos vizinhos, é mesmo se dormimos bem, se os pés nos incham… entre tantas outras coisas…
As conversas deixam de ser sobre os filhos (porque estes nos proibiram de falar deles), passam a ser sobre o estado de saúde dos nossos pais e das nossas enfermidades.
Mas importa falar, não importa do que, desde que continuemos a falar é sinal que continuamos a seguir o plano de nos mantermos em fuga.
Nesta fase da vida, os adultos assustam-se… com a contagem dos “entas”, e depois começam a repetir em voz alta que nunca gostaram tanto de si como acontece nesta fase da sua vida.
E por gostarem tanto de si começam por consultar cirurgiões plásticos, contratar um personal trainer (PT), fazer viagens de interiorização espiritual, organizar grupos de treino ou de caminhadas e tudo para fugirem aos que o realmente os assusta. (Nos assusta!) A proximidade vocês sabem do quê…
Fascina-nos a juventude e vamos nos movendo de forma a passarmos por mais novos, aliás há quem comece a escrever manuais de ajuda!
Cada um passa por esta fase de formas diferentes. Uns agarram-se ao que têm, outros procuram por algo que os realize, e como diz a música não são os únicos.
Importante é ter bem vigiada a visão, e para isso serve um bom oftalmologista. Sim é importante ter a saúde vigiada por bons profissionais, mas o mais importante na vida, aquilo que nos dá saúde, é mantermos por perto as melhores pessoas que conhecemos. E mantermos distantes todas aquelas que nos deixam doentes.  
Necessitamos de bons profissionais para cuidarem da nossa saúde e da nossa aparência, mas precisamos muito mais das pessoas que nos alimentam a alma.
Nesta fase da vida já aprendemos o quão importante é ter uma postura correta, e começamos a andar direitas. Já não deixamos que muitas coisas nos verguem.
Tentamos andar com a cabeça levantada e costas direitas a maior parte do tempo, e tão direitos que andamos que não vemos a enorme a poia que estava mesmo à frente, e bastava termos olhado para baixo.
E é isto mesmo, por melhor que pareça já sabemos que o melhor é aproveitar o momento porque em breve ou iremos pisar, ou irá chover, porcaria.
Mas estamos vivos!

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

X - FUGIR À MORTE TODOS OS DIAS CANSA – FILHOS!

Os filhos são tudo. E não são nada. São tudo porque chegam de repente e ocupam tudo. O espaço que estava disponível para eles, e ainda aquele que eles oportunamente preenchem, empurrando daqui e dali. Não são nada porque assim como chegam também desaparecem, e quase sempre com os vadios dos amig@s e d@s namorad@s. Levam o dinheiro da nossa carteira, e as chaves do nosso carro e com sorte aparecem para tomar banho. Sabemos que passaram por casa por causa da loiça, dos pêlos, e da roupa suja espalhados pela casa.  
Os filhos revelam o que há em nós, o melhor e o pior. Os nossos medos, a nossa paciência, a capacidade de perdoar e também os nossos limites.
E começa tudo no princípio dos princípios… ainda na maternidade quando nos dizem “ele não quer sair, faça força” ou então quando dizem “ele já está com a cabeça de fora, não respire!”. Andámos a ver o filme durante nove meses, mas é naquele momento que descobrimos quem é que, no final, terá o poder na mão. Quem é que vai mandar, e garantidamente não vamos ser nós….  
A vida torna-se um pesadelo quando somos apanhados no papel de pais. Está tudo estragado. A vida acabou. Os amigos desaparecem. As noites são longas e não são ao som de rock n’rol. O álcool é proibido. O sexo selvagem é um mito. A vida sem horários ou rotinas acabou-se. E é neste momento que temos que pensar como sobreviver ao fim de tudo. Ao fim da vida como a conhecíamos.
Sabem quando têm uma dor-de-cabeça e dizem “vou descansar um pouco para ver se fico melhor!”, ou quando ficamos insuportáveis porque não tomámos o pequeno-almoço às horas que queríamos?, ou quando não fazemos o jantar porque não nos apetece cozinhar? Ou quando intervalamos, um dia inteiro, ora na cama, ora no sofá, sem fazer nada? Passar um dia no cinema? Ler um livro num ápice? Conhecem esta sensação de não ter nada programado? Esses dias, esses maravilhosos dias. Onde estão eles? Onde ficaram?
ESSES DIAS ACABARAM!
ACABOU A PRAIA SEM HORAS, SEM SACOS, SEM COMIDA, SEM CHAPÉU-DE-SOL!
ACABARAM-SE OS BANHOS RELAXANTES!
ACABOU-SE O SEXO ESPONTÂNEO!
A VIDA ACABOU…
Como a conhecíamos…
A vida fica ainda pior, quando se é “a mãe” na relação. Quando tudo depende da mãe. A roupa, a loiça, a comida, o bebé e até o animal da estimação. As mães não sabem o que é planear porque o imprevisto dá voltas ao planeamento. Tenho para mim que todas as mães que conseguem sair de casa vestidas são mulheres felizes, e sem nódoas ou bolçado, essas são as verdadeiras mulheres abençoadas!
Ser “o pai” na relação é estatuto, é conseguir sair de casa quando apetece e com banho tomado. Sair às horas que precisa. Conseguir ouvir as notícias e pensar sobre elas. Ser capaz de dormir uma noite inteira sem interrupções.
E como tudo na vida, ser “o pai” ou “a mãe” na relação não depende do género, depende da atitude!  
OS PRIMEIROS TRÊS MESES
Dizem os livros que os bebés comem de 3 em 3 horas e dormem a maior parte do tempo. Alguém informou os bebés que é isto que se espera deles?
A maior parte do tempo os bebés andam perdidos, porque não viram essas regras em lado nenhum, e depois como ainda não se sabem explicar choram, e choram, e choram. E quem é que suporta esta confusão? A Mãe da relação! Porque o Pai da relação dorme que nem uma pedra!
Sobrevivemos aos nossos pais, ao Jojó, a maus cortes de cabelo e aos chumaços, à música techno, a questão é saber se conseguimos sobreviver a estes seres incríveis, o pai e o bebé.


Combinei sair com a Rita e com os nossos bebés. Combinamos tudo para sair de casa ao mesmo tempo.
Banho tomado? – Sim
Bebés mamados? Sim
Roupa vestida? Sim
Sapatos nos pés? Sim
Malas, sacos, e alcofas prontas? Sim
Tudo pronto para sair de casa.
Espera, que cheiro é este este que vem do bebé? Que barulho foi este?
E toca a recomeçar tudo porque o bebé lembrou-se de fazer o cocó do mês!

Três horas depois lá nos encontramos, ambas parecíamos medicadas, sedadas, anestesiadas. Estávamos péssimas! A primeira coisa que a Rita me disse foi: “Fecha a braguilha.”
A segunda coisa que disse foi: “Já não chegava não poder beber álcool, agora não posso beber café… parece que faz gases.”;
A terceira: “sabias que existem sites onde encomendas comida e que a levam a casa?” Quarta: “tens feito os exercícios do períneo?”
Sem ter conseguido responder a uma única pergunta feita, ela avançava impiedosamente para a pergunta seguinte: “ Sabes o que resulta? Para conseguir que o bebé me deixe fazer alguma coisa? Ligar o aspirador ou o secador do cabelo!   
E antes que ela despachasse a próxima questão eu disse: “Rita há quanto tempo não dormes?!”
Ela respondeu: “dormir? Mas dormir como? Dormir deitada na cama? Sentada no sofá? Em pé? No chão? Na mesa? Na rua? A conduzir? Dormir sozinha? Dormir como? Sabes que mais? Nunca me deixas falar, vou embora. Falamos quando estiveres mais bem-disposta!”
E ficamos assim, acreditando, em silêncio, que iríamos sobreviver!

OS SEGUNDOS TRÊS MESES
Já desistimos de combinar ou planear. Trocamos o sujeito e o verbo na frase “se Deus quiser” por “se o Bebé deixar”.
O que sabemos, neste momento, é que estamos nas mãos deles. Aqueles sorrisos matreiros já nos convenceram e agora é rezar para que eles não nos façam muito mal.
Continuamos sem conseguir tomar banho e sem dormir, mas já não nos importamos. Nesta fase temos mais para limpar porque eles começam a comer as primeiras sopas e adoram mexer nela e depois passam a sua mão em todas as superfícies, planas, inclinadas e humanas, às vezes despejam-na outras vezes cospem-na. Já me aconteceu perguntarem o que tenho no cabelo e antes de dar a reposta pensar quais foram os ingredientes da sopa.
E com as primeiras comidas os cocós ficam insuportavelmente mal-cheirosos. E apesar disto, as conversas das mães continuam a ser sobre o cocó. A cor, a consistência e a frequência.
 Os dentes começam a nascer, e se não nascerem nesta altura não se preocupem, eles vão acabar por nascer e vocês irão sentir esse crescimento na vossa carne e pele. Mas vão por mim quanto mais tarde melhor! Os dentes, a fala, e as inconveniências.

DEPOIS DOS SEGUNDOS TRÊS MESES
Vem a pressa de andar, de falar, de correr, de pintar, de cantar, de contar….
E acabou-se o pouco sossego que ainda tínhamos!
Nesta altura regredimos na linha da evolução e deixamos de andar erectus para andar curvados. Curvados para os segurar, para brincar, para apanhar as coisas que deixam desarrumadas, para limpar todas as superfícies que eles sujam. Curvados porque a vida está a dar-nos uma lição.
Depois vêm as birras, as chantagens, as negociações, o drama, as manias, os gritos e a escolha de má música. Tudo motivos para deixarmos de lutar pela ilusão de que temos uma vida, não temos. A nossa vida passou a ser deles.


Eu e a Rita voltámos a sair. Mas nas primeiras vezes que saímos a Rita e eu falávamos do nosso dia-a-dia, das rotinas, dos horários. As nossas saídas eram uma seca, e percebemos que a nossa amizade estava por um fio. E ponderamos falar sobre o que era mais importante na vida:
- Rita não consigo falar da actualidade porque só há pouco tempo descobri que o Ramalho Eanes não é o Presidente da República! Queres falar sobre o quê?
- Desde que não falemos de cocó e roupa para crianças pode ser qualquer coisa.
- Estou a pensar comprar a Bimby…
- Não, também não podes falar disso!
- Rita a birra que ele fez ontem para tomar banho?
- Estou a levantar-me, dois minutos e desapareço!
- Contei-te que encomendei uns livros na Amazon e que foi um rapaz que os foi entregar? Giro, Rita, muito giro. Ele fez-me perguntas sobre os livros, acreditas?
A Rita abraçou-me e disse: “nós vamos conseguir! Ainda há esperança!” 

O que acontece com as relações quando aparecem as crianças tem muito que ver com as crianças e com os seus progenitores. Costumo dizer que o melhor do mundo são as crianças e o pior do mundo são os pais das crianças.  
Da minha curta, mas intensa, experiência a fugir da morte apercebi-me de que com filhos, descobrimos que a bipolaridade não é uma doença; que podemos estar sempre cansados sem estarmos com anemia; que não existem tempos mortos; e que a chuva pode fazer bem às plantações, mas não faz bem às relações.
Passo a explicar,
1) a questão da bipolaridade, acordamos a pensar em chegar rapidamente ao trabalho para descansar (Querido Chefe não sei se acompanha este manual, e desculpe a forma como vou colocar isto, mas qualquer trabalho é canja perto de uma birra, ou amuo de miúdos logo pela manhã), e até chegar a esse momento já chorámos, gritámos, rimos, mudámos de roupa, limpámos o leite derramado em cima da mesa, pusemos alguém de castigo… e ainda só passaram 30 minutos desde que acordámos. E somos sempre a mesma pessoa, mas a oscilar entre extremos.
Isto não fica melhor com os anos, porque se há coisa que já aprendi é que amuos e birras pioram com o crescimento. Deviam conhecer alguns dos adultos com quem confraternizo;
2) O cansaço instala-se e quando nos apercebemos acabámos de concordar que sim, mas não sabemos no quê, e podemos ter concordado em ser cúmplices no assassinato de alguém. O cansaço leva-nos ao desespero. Só queremos deixar de ouvir aquela voz ecoando: ”Posso mãe? Posso?”
Leva-nos a adormecer nos sítios mais estranhos e nas posições mais incómodas. A cair para o lado exaustas. E quando estamos neste ponto não há medicação que nos salve. Precisamos de arranjar alguém em quem despejar esse cansaço e a frustração? Onde é que está o pai afinal, quando mais precisamos dele?

3) Porque só de pensar que o mau tempo nos vai obrigar a ficar em casa, e que eles irão gastar as suas energias em casa, a desarrumar, a gritar, e a exigir… só de pensar… fico com arrepios e suores frios!
Obviamente que com a bipolaridade ao rubro não existem espaços para tempos mortos. A nossa vida é uma montanha russa, com livre acesso ao choro, às queixinhas, e às exigências.
Rapidamente deixamos de ter vida própria para termos que viver a vida deles. Festas, atividades, dias em casa de amigos, saídas, trabalhos de grupo, até ao dia em que estes ingratos já não nos querem por perto.
Descobrimos a poluição sonora que hoje se faz e que os nossos filhos andam a ouvir. As roupas que eles querem usar e as cores das mesmas. Ouvimos, sem qualquer remorso, que nunca serão do Futebol Clube do Porto. E por aí adiante… Desgosto atrás de desgosto. Como sobreviver?
Não é fácil.
Falei com a Rita sobre diversas preocupações que me assolavam:
 “Rita como é que vou educar uma criança?”
E ela tranquilizou-me: “é para isso que as Escolas servem!”
Eu: “ Rita e se esta criança não gostar de mim?”
Rita: “ é possível, conheço muitas pessoas que não te suportam, mas nessa altura já podes beber!
Eu: “Rita acho que nunca irei a aniversários de crianças. E não é porque não me convidem é porque não costuma haver álcool nessas festas…”
Rita: “Estás parva? Esquece o álcool, foca-te nas vistas! Já viste a quantidade de homens giros que circulam por lá?”
Eu: Não, nunca reparei! Aliás esses adultos assustam-me, mais do que os dentes num recém-nascido!

Para sobreviver são necessárias três coisas:
Rapidez, paciência e sentido de humor! Basicamente tudo o que temos vindo a treinar.
Rápidas a segurar tudo o que pode cair: bebés, biberons, copos, sacos, pessoas, expectativas, surpresas, fraldas, calças, cabelo, dentes, peito, entre outras coisas. Rápidas a recuperar de doenças, desgostos, desilusões, festas. Rápidas a pensar, a responder, a defender, e a arrancar.
Paciência porque enquanto “o pau vai e vem folgam as costas”. Porque o melhor conselheiro continua a ser o tempo. Paciência porque sem ela deixamos de fugir à morte e acabamos por falecer ou padecer de uma maleita que, até pode nem nos levar a esticar o pernil, pode somente deixar-nos muito doentes e/ou muito sós.
Sentido de humor porque rir continua a ser um excelente remédio. Rir porque o bebé é o oposto daquilo que imaginávamos; rir porque já dissemos várias vezes “se fosse comigo” e nunca esperámos que realmente nos acontecesse. Rir porque não fomos o suficiente rápidas ou pacientes. Rir porque chorar não queima tantas calorias, nem mexe com tantos músculos.
E rir porque estes seres incríveis, os filhos, são uns sacanitas que nos dão cabo da cabeça, mas que nos enchem o coração, e aqui para nós, estes sacanitas até têm piada!

Vemo-nos no próximo mês!   

domingo, 30 de setembro de 2018

IX - FUGIR À MORTE TODOS OS DIAS CANSA – 9 MESES DEPOIS!

Ninguém que acredite na longevidade pode pensar que a maternidade/paternidade irá acrescentar anos de vida à sua existência.
Na maior parte das vezes as pessoas sobrevivem, mas a saúde mental vai-se para sempre.
Sim, como sobreviver à chegada de crianças sem álcool? Sem drogas?
Durante 9 meses a nossa vida, o nosso corpo, as nossas relações sociais sofrem transformações algumas irreparáveis. Sofrem-se duras e graves provações, alterações e privações.
Porque é que então alguém avança para isto? Porque é que não ficamos pelos companheiros de quatro patas ou com barbatanas?
Uma das explicações que vejo para cair nesta armadilha é, a meu ver, porque o ser humano não sabe ficar quieto!
Pois para aqueles que já se meteram nisso, ou andam a pensar experimentar, vou deixar aqui algumas dicas para sobreviverem aos nove meses sem perderem todos os amigos, mesmo aqueles que ninguém quer.

Existem muitas teorias sobre a forma de fazer bebés meninos ou meninas, há quem use botas, há quem coma frutos secos, há ainda quem se atreva em posições perigosas para a coluna, e no fim nada disso é preciso. Ora esqueçam tudo o que pensam que sabem, e leiam o que tenho para vos contar!    

PRIMEIRO MÊS – A CARTA
Por acidente ou de propósito alguém enviou A CARTA para a cegonha. O que se passa com A CARTA é que ou se escreve bem ou pode dar para o torto.
Letra legível, sem rasuras, indicações objetivas, não mais do que um parágrafo. E por favor nada de símbolos, as cegonhas não têm que conhecer os símbolos para o género feminino e masculino. Ponham-se com mariquices e depois queixem-se que não era bem aquilo que queriam.
Outra coisa, se A CARTA não for bem escrita às vezes pode não chegar ao destino, por isso é preciso continuar a praticar a caligrafia.
Se A CARTA chegou à cegonha, e se a mensagem foi bem escrita, o corpo vai começar a dar sinais.
Alguns dos sinais são: barriga grande, oscilação acentuada de humor, flatulência, azia, apetite incomensurável, e cansaço, isto nos homens.
Nas mulheres tudo igual, à exceção dos mamilos escuros e o desaparecimento da menstruação.

SEGUNDO MÊS – HORMONA’S PARTY
Foi um dos momentos mais assustadores da minha vida quando ao chegar perto da Rita a vi a chorar. Fiquei tão aflita. É que nem a mais cruel das cebolas arranca uma lágrima àquela miúda.
Perguntei: “Estás bem? Morreu alguém?”
Ela soluçava e apontava para a televisão. Na televisão aparecia a imagem de David Bowie. Soluçando ela dizia: “ELE MORREU!”   
E eu disse: “Rita ele morreu há um ano!”
E ela chorou ainda mais e disse-me “PÁRA, NÃO DIGAS ISSO, NÃO VÊS O QUANTO ME MAGOAS?”
Foi nesse momento que me apercebi que as hormonas são traiçoeiras. As hormonas estão ao mesmo nível do nosso inconsciente que durante algumas noites nos atraiçoa e nos deixa falar coisas que não confessaríamos mesmo que a nossa vida dependesse disso.
A nossa vida está nas mãos da progesterona e do estrogénio e como o próprio nome indica não estamos a falar de gajos bons para engatar!
O melhor é deixar fluir. Se for para chorar é para chorar, se for para comer é para comer, idem, idem, aspas, aspas para o gritar, bater ou vomitar.
Neste estado de graça é legítimo enjoar de tudo o que se faz com sacrifício. Aspirar, ver jogos do Benfica, preparar refeições, passar a ferro, depilação, pintar os cabelos brancos, cortar as unhas dos pés, estender meias, and so on…
Às grávidas pertence o comando da casa e da televisão!

TERCEIRO MÊS – GRÁVIDA, GORDA OU DOENTE?
Estes primeiros três meses são terríveis. Parece que estás grávida, mas ninguém se atreve a afirmar. Ninguém se levanta para dar te lugar no metro com medo de ofender.
Se se mostra a tímida barriga e dizemos que queremos o lugar, ou que temos prioridade, somos olhadas de lado e ainda ouvimos: “No meu tempo a gravidez não era doença!”
Descobre-se que a gravidez é talvez um dos desportos mais competitivos do mundo.
Tem que se competir com todas as mulheres que trabalharam até lhes rebentarem as águas, e quando estas rebentaram ainda limparam o chão. Competir com aquelas que não engordam. Competir com o feto para ainda conseguir ter alguma atenção. E até competir com o pai da criança para perceber qual dos dois está mais limitado pela gravidez.
Pergunto-me novamente por que razão alguém que quer ter uma vida longa e saudável se sujeita a isto? E se a vossa explicação for “para sair da monotonia”, até pode ser um motivo válido porque a monotonia acabou, mas valerá a pena?

QUARTO MÊS – ROUPA PARA GRÁVIDAS
Sem álcool, sem cintura e com a barriga a crescer alguma coisa boa teria que acontecer.
Não sei se já escrevi isto, mas eu e a Rita engravidámos em simultâneo. E vivemos 9 meses sem álcool em conjunto. E quando queríamos falar de todas as mudanças que estavam a ocorrer combinávamos fazê-lo à noite, no miradouro de Santa Catarina.
Privadas de álcool, mas ainda com o cérebro a funcionar sabíamos que ali poderíamos ter um “cheirinho” da nossa vida passada, aquela antes de engravidar, há 4 meses atrás, e que parecia que tinha sido há uma eternidade. Lá continuava tudo igual, havia erva e álcool, sabíamos que estávamos o mais próximo que podíamos do paraíso, durante estes nove meses.
E numa dessas noites perguntei: Rita sabes o que é que é bom nesta fase?
Ela: “Os orgasmos?!”
Eu: “Rita que disparate! Essas coisas deixam marcas nos bebés”.
Ela respirou fundo e disse: “Então… bom nesta fase… as mamas grandes?”
Eu já um pouco sem jeito disse: “Não Rita! Agora temos a desculpa perfeita para ir às compras FREQUENTEMENTE!
E ela respondeu: “Mas tu já viste a roupa que se vende para grávidas?”
E levou-me a uma loja dessas e à secção de roupa para grávida. Fui ver a roupa interior. Saí a correr. Fiquei deprimida. Cheguei a casa e chorei. O mundo como o tinha conhecido tinha acabado e só voltei às compras quando a criança já tinha dois anos.

QUINTO MÊS – OS EXAMES. 
Se não tivesse acontecido comigo e se alguém me dissesse que uma grávida tinha fazer exames, ou análises, ou ir a consultas com o/a obstetra TANTAS VEZES, eu diria que essa pessoa das três uma: ou tinha um “affair” com um dos profissionais de saúde que a acompanha; ou com todos eles; ou que a essa pessoa estava gravemente doente, a morrer mesmo.
Assim, e pela frequência com que isto acontece, seguem os meus melhores conselhos: se gostarem de meninas, escolham uma obstetra que vos compreenda e que seja sempre um prazer revisitar; se gostarem de meninos, escolham um obstetra que vos toque, e que vos mantenha ansiosas pela próxima consulta.
Quanto aos exames e análises evitem todos os que poderem mas, se os tiverem mesmo que fazer, aguentem! Façam tudo de uma só vez porque repetir exames dolorosos é muito estúpido.

SEXTO MÊS – MENINO OU MENINA?
Quando a barriga começa a ganhar terreno começamos a conhecer pessoas que sabem coisas, coisas que nem os médicos sabem, como por exemplo qual o sexo do feto, se é cabeludo, ou com quem ele é parecido. E isto tudo ainda com o bebé dentro da barriga.
Recorremos a coisas que sempre evitamos, tais como as jardineiras, sapatos rasos, babetes, roupa amarela, listas de nomes para bebés, almofadas para dormir, livros de auto-ajuda, entre outros.
O sinal de que estamos no declínio da sanidade mental é quando usamos a expressão: “menino ou menina? Não sabemos, mas o importante é que venha com saúde.” O que queremos dizer com isto é que se o bebé vier constipado o iremos devolver.
Os receios dos pais estão relacionados com a passagem pela Escola Secundária onde aprendemos que a vida é mais fácil para os bonitos. Mas este é um receio errado porque como já escrevi várias vezes o que conta é a atitude.
A partir deste momento quando perguntarem se é menino ou menina a resposta deve ser: “Não sei, mas desde que venha com atitude, é o que interessa.” 

SÉTIMO MÊS -PREPARAÇÃO PRÉ E PÓS PARTO.
Uma das partes mais difíceis da gravidez é conseguir chegar ao centro de preparação para o parto, de carro, e conseguir estacionar. Ter 3 espelhos no carro e nenhum deles servir para ver o nosso reflexo é frustrante. Ter cuidado connosco e com os outros é cansativo. Mas ultrapassar isto tudo com pés inchados, e uma barriga que chega antes das nossas mãos ao volante é tortuoso.
A Rita e eu fizemos o Curso de preparação “para o que lá vinha” juntas, e jurámos que nunca mais repetiríamos esta experiência. Na verdade o único curso que voltamos a fazer juntas foi o de enologia. O curso de preparação “para o que lá vinha” revelou diversas dificuldades, o estacionamento sem dúvida foi uma delas, mas conseguir um lugar sentado onde pudesse esticar as pernas também foi muito difícil. A competição com os homens, que também participavam nestes cursos, para ver qual de nós precisava de mais espaço para abrir as pernas deixou-me cheia de dúvidas. E como sempre perguntei à Rita: “Rita porque achas que aquele senhor que se senta ao meu lado precisa de tanto espaço?”
A Rita explicou-me que muitos homens não têm relações sexuais durante a gravidez e isso faz com que retenham muitos líquidos, e logo incham. Daí a dificuldade em fecharem as pernas.
Na sessão seguinte perguntei a um senhor se ele já se tinha conseguido aliviar, para saber se teria mais espaço para as minhas pernas, e desde esse dia que ninguém, além da Rita, se sentou ao meu lado. Consegui passar no curso, aliás aqui entre nós, mudar fraldas e dar banho a nenucos foram coisas que fiz desde sempre às minhas bonecas. 
Por outro lado desde que nasci que respiro, pelo que não sei de onde vem aquela obsessão com a respiração, é óbvio que temos que respirar.  

OITAVO MÊS – BABY SHOWER
Descobrem-se as coisas mais incríveis quando se está grávida, como por exemplo a festa de despedida da vida tal como a conhecíamos, mais conhecida por baby shower. É um daqueles momentos que tememos pela nossa sanidade mental e choramos, choramos muito. Não, não é de alegria, é de tristeza por não podermos beber.
Organizaram um baby shower para mim e para a Rita. A Rita acabou por ceder e aceitou ir, e foi buscar-me a casa. Disse de imediato: “se alguém pronunciar as palavras ‘mastite’, ‘incontinência’ ou ‘hemorroídas’ eu parto-lhe a cara.”
Eu disse: “Rita isto é sobre o bebé, não é sobre as nossas avós.” Ela abriu-me os olhos e arrancou, com o carro, em silêncio. Eu revi o nosso breve diálogo a pensar o que é que a poderia ter irritado. Mas ao chegarmos ao local de encontro, e ao assistir à decoração e a todas aquelas mulheres e crianças SUPER felizes, agarrei-me à Rita e chorei, chorámos. E sussurrei ao seu ouvido: “Onde é que nos meti? Desculpa-me!”
Alguém sabia que existem listas de prendas para o baby shower?
Vocês sabiam que existem roupas de betos para recém-nascidos?
Aprendi o significado correto de cueiro. E também tive oportunidade de aplicar aqueles ensinamentos para a vida: se não interessa deixa ir”, deixa ir os comentários que não te acrescentam nada como mãe, ou ser humano, deixa ir prendas que não queres, deixa ir a parvoíce. E ainda outro: “foca-te no que interessa”: o bolo de chocolate, o garçon moreno de olhos verdes, e garantir a qualidade da música de fundo!

NONO MÊS – ENTÃO MAS AINDA NÃO NASCEU?
Nono mês, 4 000 000 semanas, 1 tonelada e a criança ainda não nasceu. Noites mal dormidas, um corpo que se desconhece e ainda temos que ouvir a pergunta: “Então mas ainda não nasceu?”
E nessa altura pensamos que o planeta está superpovoado e que a nossa criança está a chegar e precisa de espaço e de um mundo com menos estupidez, imaginamos diferentes formas de matar alguém.
A resposta deveria ser: “Sim já nasceu, mas apeguei-me a esta barriga e a estes líquidos que não consigo deixá-los ir” ou “Não, ele está a evitar ao máximo conhecer certas pessoas”.
Descobre-se que todas as mulheres são mães, e que uma vez cá fora a nossa vida acabou como sempre a conhecemos, por isso não nos importamos que eles estejam cá dentro o tempo todo que for possível.
A cegonha nunca falha. Depois de avaliar as prioridades, as entregas são feitas. E depois disto a vida transforma-se.
Depois dos nove meses, ou em certos casos mais cedo, percebemos que todo o incómodo sentido foi a preparação para o que chegou. Depois disto, a conversa em semanas desaparece, os pontos caem, e 8 anos e 3 meses depois já conseguimos falar do parto sem fechar as pernas.

Nunca mais a vida vai ser a mesma. Mas sobre isso falamos a seguir.


Todos a respirar!
Inspira, expira! Inspira, expira!