sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023

Fugir à morte, todos os dias, cansa | MANUAL II | CAPÍTULO I - PEDIDO DE DESCULPAS

I - PEDIDO DE DESCULPAS

 As minhas desculpas por vos ter abandonado num dos momentos mais difíceis das nossas vidas.

Não importa a idade que se tem, nunca estamos preparados, para perder algo ou alguém, que tínhamos como garantido. Já cá estava antes de nós cá estarmos e por cá continuava, parecia tão saudável, mas PUFF desapareceu. Para alguns tinha 96 anos, outros acham que ela é a rainha de todos nós, há quem ache que se trata de uma bonita lenda, alguns perderiam a vida por ela e, para muitos outros, ela é imortal.

Deixei-vos, quando a perdemos. Eu sei, os diretos e as notícias constantes só agravaram a dor da perda. Ninguém nos tinha preparado para estes tempos. Abandonei-vos, naqueles dias em que estavam encurralados com a vossa família, ou sozinhos porque nem a vossa família queria estar convosco.

Perdemos a liberdade e pior, estávamos a sós com as Autoridades de Saúde Nacionais, e sem papel higiénico!

Porém, se conseguem ler estas linhas é porque o glaucoma e a miopia não avançaram, mas é também sinal de que a primeira parte do meu manual foi útil, e manteve-vos vivos.

O mundo mudou, mas se continuamos por cá é sinal de que acompanhámos a mudança e não fizemos shutdown, o que significa que estamos todos com a última atualização do sistema operativo Depois Covid (DC).

O curso de escrita de humor não me preparou para o COVID, e todos aqueles anos na Escola Secundária também não me prepararam para ISTO. Mas afinal, o que foi ISTO?

ISTO foi uma perda de tempo!

Fugir à morte todos os dias já nos deixava cansados, mas o COVID agravou tudo. Naquele período, de confinamento, diziam as autoridades que sobrevivia quem se escondia, ORA ISTO É CONTRANATURA!

Na Escola Secundária, nos tempos Antes do Covid (AC) aprendi o grande ensinamento que retive para a vida, e que partilhei convosco, tínhamos e, ainda, temos de ser rápidos. Não havia a hipótese de nos escondermos ou irmos para o couto, ou no caso de alguns, sortudos, ir para o coito. Aliás se nos escondíamos e fossemos apanhados, o enxovalhamento era maior e apanhávamos a dobrar. Lamento, mas esconder nunca foi uma opção.

Mas nestes últimos anos, desaprendeu-se muito, razão pela qual vejo o meu regresso como obrigatório, tenho de vos martelar a cabeça com os grandes ensinamentos para nos mantermos vivos e mentalmente saudáveis. Lembram-se quais são?

Não se preocupem, caso não se lembrem, estou aqui, qual Moisés no Egito para vos conduzir à terra prometida, essa terra farta, com bom vinho e boa companhia. 

Caso haja, uma próxima vez e vos digam para ficar em casa, vocês fujam! Corram rápido, ponham em prática os dois primeiros e grandes mandamentos, e não olhem para trás, senão correm o risco de sucumbir. 

Para fugir à morte todos precisamos de espaço. E em casas, sem despensa e com 15 m2 onde é que encontramos espaço? Ouçam e leiam-me as vezes que forem precisas, mas por favor não fiquem em casa, é preferível desistir e morrer, contudo com dignidade.

Assisti, em silêncio e em sofrimento, à resposta desesperada de alguns que na tentativa de ampliar a casa atendiam o telemóvel à janela, falavam, alongando o corpo por cima do parapeito, correndo enormes riscos de saúde. Foi trágico! Testemunhei, pessoas a abrir pela primeira vez a janela, emperradas, e ainda hoje tenho pesadelos com aqueles sons. Vi, com estes dois olhos que a terra só comerá se eu não conseguir evitar, o desespero para abrir janelas cobertas de cocó de pterossauro. Estas pessoas correram riscos bem mais graves de saúde pública, do que aqueles causados pelo COVID. Um flagelo, mas até hoje não vi um único estudo sobre este tema. 

Durante o confinamento, tivemos de ceder, acabámos por desaprender e fizemos misturas. Colocámos em pausa o “Não mistures bebidas, nomes, trabalho com prazer”, não mistures de todo! Até o DEVES PARTILHAR caiu por terra. Já estava assimilado que “a erva é para partilhar”, e até isso tentaram roubar de nós. Egoísmo, jamais!

Outro recuo na vida em sociedade foram os limites à liberdade. Suspendemos por bastante tempo a liberdade de marcar encontros ao vivo, a liberdade de organizar orgias com mais de 5 pessoas, a liberdade do swing, etc. Quiseram criar a suspeição, o medo do desconhecido, quando esta tinha sido uma das maiores vitórias do século XIV, com os Descobrimentos.

E sobre o sexto mandamento? O trabalho não entra em casa, onde ficou? Não sei como foi no vosso caso, mas aqui o gajo arrombou a porta, instalou-se e contagiou tudo por onde passou, mais do que o COVID. Confesso, o meu PC ressentiu-se de imediato, deixaram de ser consultadas páginas de pornografia e instalaram-se VPN, ZOOM, TEAMS e sei lá mais o quê. Fiz tudo o que pediram, álcool gel, testes, quarentenas, vacinação, jejum intermitente, meditação e ainda hoje o PC não recuperou, desta fadiga pandémica.

Outro mandamento do qual a minha visão também não recuperou, foi a excessiva utilização do fato de treino. Amig@s, Amig@s, leiam, retenham, memorizem, seja de que marca for, o FATO DE TREINO só se justifica em campos de concentração. Li artigos deprimentes sobre esta epidemia, um dilema com que temos de lidar no futuro, a sua continuidade como dress code formal. AMIG@S não há justificação, não se deixem enganar, fato de treino não é opção NUNCA e muito menos quando os ginásios estão fechados. Expliquem-me, se tudo está feio e cinzento porquê piorar o cenário com aquela roupa a fazer pandã, que algum ser preguiçoso pensou para outros seres ainda mais preguiçosos! A vida ficou difícil, mas não desistam dela! E se desistirem, já vos disse, façam-no com dignidade!

Por último, quando ouvirem falar deste tempo como uma oportunidade para mudar, ou pensar nas coisas boas da vida, estar grato por elas, dar mais valor às coisas simples, não aceitem essa conversa. Vomitem! Um dia estávamos bem, noutro dia estávamos presos em casa. Pensar em mudar causou maior frustração e desânimo, afinal mudar de onde para onde? Talvez mudar de canal fosse possível, mas só se fossemos os mais rápidos a chegar ao comando.

Só uma minoria, pôde mudar de vida, mas essas poderiam mudar em qualquer altura, não precisavam do COVID, nem do 19, nem de outro qualquer.  A mudança é uma coisa boa, mas quando somos nós a decidir.

Foi neste momento de aprendizagem que vos deixei sozinha, e sem papel higiénico, mas já que aqui estão, peço que me perdoem e que me deem uma segunda oportunidade. Permitam que recupere a vossa confiança, por partilhar a nova tábua dos dez mandamentos.

Tal como Moisés fez, assim o faço, desci do Monte Sinai, vi que muitos de vocês estão perdidos e de fato de treino. Vejo, por isso muitas razões para que estes mandamentos sejam gravados. Nada está garantido, atentem no que aconteceu com a nossa liberdade e com a rainha Isabel II.

Temos, por estes motivos, de nos manter unidos para chegar aos 100 anos, vestindo Vivienne Westwood, para isso memorizem:

1.    Não te deixarás apanhar! FOGE;

2.    Não olhes para trás! CORRE RÁPIDO;

3.    Não ficarás sem espaço! SAI PARA A RUA;

4.    Não farás misturas! SÓ AS QUE TE DEIXAM FELIZ;

5.    Irás partilhar! MAS NÃO MOLHES; 

6.    O trabalho não entrará em casa, “AGRADECE, MAS NÃO PRECISAS”; 

7.   Não ficarás só!  TINDER, MEETIC, OKCUPID, HAPPN, BUMBLE, BADOO, HER, GRINDR, THE LEAGUE, PLENTY OF FISH, LOVE FLUTTER, COFFEE MEETS BAGEL, etc.

8.    Não usarás fato de treino! ANTES NÚ DO QUE MAL VESTIDO;

9.    Mudarás! QUANDO E COMO QUISERES.

10.   O álcool é sagrado! NÃO USARÁS O ÁLCOOL EM VÃO - não O usarás na mão!

Consegui o vosso perdão? Não?!

Ainda não!

Mais uma oportunidade? 

Vamos a isso?

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

XII- FUGIR À MORTE TODOS OS DIAS CANSA – UPS!


        Sobrevivemos aos nossos pais, aos tempos da Escola Secundária, a maus cortes de cabelo, a péssimas escolhas, escapamos ao Jójó, curámos desilusões, frustrações e maleitas, a má genética, assistimos a muitos desaparecimentos pelo caminho, resistimos aos filhos, aos sobrinhos, aos maus professores, a maus ambientes de trabalho, a maus exemplos, ao mau vinho, às misturas, mau sexo, péssimos conselhos, Dj’s que nos arruinaram a noite… e ainda assim continuamos a ter que fugir porque as provas continuam.
        Com mais ou menos fôlego continuamos a fugir DELA, todos os dias. Mas é inevitável sentir que por mais que fujamos aproximamo-nos desse momento.
E os sintomas de que estamos perto dela… daquela da qual não se diz o nome… manifestam-se de diferentes formas e algumas são bem inoportunas: flatulência, incontinência, falhas de memória, redução de audição e de visão, ausência de paciência, lentidão, aumento considerável do uso de diversas drogas (e todas prescritas!) para diferentes maleitas, e a pior de todas… a redução do consumo de álcool por causa da medicação.
        Outro sinal que nos indica a sua proximidade é a redução do interesse do sexo oposto. Deixamos de sentir que olham para o nosso peito, pernas e rabo, existe uma substancial redução de convites para saídas, que é proporcional ao aumento da oferta de lugares para nos sentarmos. Ouvimos também, porque a falta de audição não nos poupa, os gritos: “Deixa a Senhora passar”, ou “Cuidado com a velha:”
        Descobrimos que ninguém acha piada aos velhos, no geral, porque eles babam, porque contam sempre as mesmas histórias e porque, em particular, os únicos velhotes fixxes que existem somos nós, todos os outros são uma seca, pelo menos é o que pensamos dos nossos pares.
        Basicamente a vida continua a acontecer com a repetição ininterrupta das mesmas situações.
Só que agora estamos na Terceira Idade. Na primeira idade não tínhamos dentes; na segunda idade se não fomos rápidos ficámos sem dentes, com um dos murros do Jójó; e na terceira idade, se o Jójó não nos partiu os dentes na altura, eles acabarão por cair.
Passamos a maior parte do tempo ora em hospitais, ora em Centros de Saúde, mas deixamo-nos de preocupar com a roupa interior que vestimos quando vamos ao médico, porque em vez do constrangedor “dispa-se” passamos a ouvir: “Não precisa de se despir, puxe só a camisola para cima”.

Existem aquelas creches para as pessoas da terceira idade, os Centros de Dia, e ainda os Colégios internos para os casos mais complicados, designados como Lares.

Telefonei para a Rita porque estava angustiada com os programas que passavam na televisão e disse: “Rita não aguento mais aqueles dois, eles não comunicam, eles guincham”
E a Rita disse: “achas? Deve ser o teu aparelho de audição que está mal regulado. Olha que eu com a idade deles era bem mais barulhenta!”
- Rita que disparate, essa tua demência está cada vez pior, nem sei porque te ligo… Tu nunca foste apresentadora de televisão!
- Mas do que é que estás a falar? Não estás a ver o canal Playboy?!
E novamente agradeci a Rita na minha vida, ao longo de todos estes anos, a Rita manteve-se igual a ela própria.

Como os estudos revelam que as mulheres vivem mais do que os homens, eu e a Rita cedo pensámos acautelar o nosso futuro. Contudo, como somos boas pessoas e tratamos tão bem os nossos homens, eles duram e duram, mas agora não nos importamos com isso, porque as oportunidades já não fluem como antigamente. Antes do problema de incontinência. 
Mas como estava a dizer, eu e a Rita acautelámos esta fase da vida por criar memórias, também conhecidas como S E X O, D R O G A S E R O C K N’ R O L L.
E agora vivemos uma boa parte das nossas tardes a recordar esses tempos e a dar conselhos aos nossos netos sobre tudo o que pode irritar os totós dos pais deles!
Outra coisa que eu e a Rita também fizemos foi Cursos de iniciação à espiritualidade. Não resultou porque tínhamos que ficar em silêncio mais tempo do que aquele que nos era possível.
Depois resolvemos conhecer a religião que melhor se adaptava à nossa forma de ser, visitamos várias igrejas e locais de culto, a Rita fazia sempre a mesma pergunta, e ainda na entrada: “Como é que as pessoas morrem aqui?”
Avisei a Rita que ela tinha que reformular a questão, e ela passou a perguntar: “eu não quero ir para o céu, vocês aqui vão para onde quando morrem?”
A Rita tinha como objetivo encontrar uma religião que nos garantisse que quando morrêssemos teríamos 100 homens viris pela eternidade. Ninguém lhe conseguia garantir isso. Pelo contrário houve um pastor que lhe disse que aquilo que ela queria era um pecado mortal. A Rita olhou para ele fixamente e perguntou: “o que é que conhece que seja pecado e não seja mortal?”. Foi a última vez que entramos naquela igreja!  
Rapidamente percebi que o melhor era não nos metermos por esses caminhos, pelo menos se queria continuar a rasteirar a morte.

Depois temos Universidades para a Terceira Idade, Juntas de freguesia e outras Associações com arraiais para idosos sem próteses, e ainda discussões sobre o envelhecimento ativo onde nunca vi discutirem a importância do sexo. O que me levou a gritar EUREKA EUREKA, já sei porque é que os idosos querem morrer!
        Por isso veio à minha cabeça que não podemos deixar, em nenhum momento da vida, de decidir. Decidir o que, com quem, onde e como.
        O meu objetivo é que quando chegar o meu dia, alguém presente diga: “esta gozou até ao último suspiro”.

        Importante também é não ficar só. A solidão é muito triste. Temos muito tempo para ficar sós pela eternidade afora. Eu sei que mais vale só do que mal acompanhado, mas não ter ninguém na vida com quem partilhar é muito triste.
        Outra coisa importante é planear a morte com tempo e confiar essa informação a 3 pessoas diferentes. Decisões como quem vamos convidar para o nosso funeral, a indumentária que vamos usar, a música que vai passar, quem é que nos vai acompanhar, quem vai celebrar a cerimónia de stand up, quais as bebidas que vão ser servidas e quem vai confecionar os pratos que se vão servir, entre outras decisões. Deixar estas escolhas já feitas deixou-me mais tranquila.
        Há um ditado popular que diz: “pagar e morrer quanto mais tarde melhor” e vocês sabem como levo os ditados a sério, por isso evito andar com dinheiro, Deus me livre de antecipar pagamentos.  
Não está nas nossas mãos, e os nossos pés às vezes não são tão rápidos como queríamos que fossem. Mas temos que dar o nosso melhor.
Podem continuar a utilizar os mesmos truques de sempre. “o jogo é meu e as regras são minhas”; “estou no coito”
(será mesmo isto que disse a vida inteira quando jogava às escondidas? Eu e todos. Coito?! Claro que se for coito ninguém tem que ir para lá).
Ou ainda, “RIP a mim não! Apanha primeiro aquele chato, vá que eu depois arranjo-te umas cenas fixxes para curtires”.

Utilizem a desculpa que der mais tempo para nos mantermos em fuga. 
Prometam-me uma corrida de andarilho!

Prometam-me isso e eu prometo que vos convido para o meu funeral daqui a muito, muito tempo! Vai ser B R U T A L!
FIM

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

XI- FUGIR À MORTE TODOS OS DIAS CANSA – A ternura dos "entas" e tais...


Esta é aquela fase da vida em que os filhos continuam a crescer em tamanho, em peso, e nos disparates.
Esta também é aquela fase da vida que os adultos têm menos paciência para MERDAS, mas como não querem esticar já o pernil puxam o autoclismo, mental ou verbalmente.   
Esta fase coincide com a abertura do baú “de desejos falhados ou por concretizar”. Momento em que pensamos que agora sim, agora é que vamos fazer AQUELE curso, aprender a tocar um instrumento, aprender a cantar, tirar a carta de condução, ou ainda uma formação para atores amadores, no meu caso é a altura para fazer um curso de sapateado.
É também, neste momento da vida, que pensamos que agora já podemos fazer AQUELA viagem, sozinha, com amig@s, ou a dois, porque os filhos já não querem fazer férias connosco. CERTO?
ERRADO!
Quando a prole ouve que é uma viagem à Patagónia não só nos DIZEM que nos vão acompanhar como também nos INFORMAM que já convidaram @s vadi@s d@s namorad@s para irem connosco… e descobrimos rapidamente que o aumento de pessoas no pacote turístico afinal só nos permite ir de férias até à Isla Cristina.

Pensamos também que vamos conseguir descansar mais porque eles já têm chave de casa e podem entrar e sair sem nos incomodar… mas os transportes estão caríssimos e se gastam no táxi não podem comprar álcool, e assim DECIDEM que o melhor é acordar um dos progenitores para proceder à recolha e distribuição da “carga”.
É também nesta fase que resolvemos que vamos sair mais, fazer jantares com amigos, saídas pela madrugada afora, cinema, teatro, passeios, passar tempo com os nossos amigos… e quando pegamos no telemóvel descobrimos que alguns dos nossos amigos ou mudaram de vida, ou de país, ou de casa, ou de sexo, ou padecem de alguma maleita e ainda outros deixaram-se apanhar pela figura da ceifa na mão!  

Não sei se se recordam da Rita, mas a Rita para além de porreira é uma inspiração. Uma das grandes virtudes que caracteriza a Rita, é a sua insensibilidade para merdas, não tem feitio para isso. Aliás nunca teve!
Há uns tempos atrás ligou-me e disse: “Temos que ajudar a J. Temos que sair com ela e animá-la porque o estupor do G. pediu-lhe um tempo. Eu dava-lhe com o tempo, e com tudo o que tivesse à mão, naquela careca. Sabes bem que nunca o suportei!”
Respondi “Claro que sim Rita, aliás sei eu e todos os convidados do casamento deles, onde gritaste: ó tiras a mão daí ou parto-te o braço! Ainda hoje se comenta isso!”
No fim do telefonema fiquei contente com a sua preocupação com a J.. Sempre ouvi que “ser mãe” torna as mulheres mais sensíveis e senti que a Rita estava nesse ponto, naquele de ouvir uma amiga que precisava de desabafar.
Combinamos fazer uma peregrinação pelo Bairro Alto, de tasca em tasca, porque precisávamos de recuperar a nossa fé. Eu cheguei com a J. e a Rita chegou mais tarde, mas ainda a tempo de apanhar a J. a chorar. A Rita pediu duas imperiais e bebeu-as uma atrás da outra. Perguntou se já tínhamos pedido alguma coisa e tratou de pedir por nós e de manter a mesa sempre cheia de álcool. E dizia para a J. “podes contar sempre comigo para te encher o copo” e assim o fez durante toda a noite. Às páginas tantas perguntei-lhe “Rita não queres ouvir o que ela tem para dizer? Não foi por isso que viemos?”
A Rita disse: “ Não, nós viemos porque esta é a desculpa perfeita para sair de casa e deixar os 4 putos com o pai. E o pai não pode contestar porque eu tenho o argumento certo do meu lado: “Olha o que ele lhe fez? Os homens não valem nada. Ficas a dever-me uma. E ai de ti que venhas com essa do “preciso de um tempo!”
As separações acontecem e por diferentes razões. Umas porque mudam de tendência sexual, outras porque se apaixonaram por outras pessoas, outras porque se apaixonaram por si e descobriram que merecem mais na vida, outras que começaram a cultivar um enorme apreço por sossego, e acrescentar a isto tudo a má qualidade dos jogos de futebol que em nada contribuem para alegrar o seio familiar.

Descobrimos que existem pessoas que não estão bem com a vida que têm e gostam de desportos radicais por isso arranjam namorad@s consideravelmente mais nov@s. Porque dizem ser men@s chat@s, são mais compreensiv@s e não procuram defeitos. E depois surge o dia em que começam a viver juntos e que por vergonha escondem como foram intrujad@s. E com os segundos casamentos vêm os segundos filhos. E aquela paz que havia cada quinzena com a guarda partilhada desaparece. Todos os fins-de-semana são fim-de-semana com crianças, volta tudo ao mesmo, mas com mais crianças e mais anos em cima. Menos cabelo, menos audição, menos dentes, menos visão, e menor desempenho.

E fazer uma árvore genológica com esta miscelânea de relações? Dá uma tese de doutoramento!


Sempre que saímos com amigos, e que os nossos amigos diziam: “agora comecei a correr” ou “agora inscrevi-me no ginásio” a Rita respondia: “então? andas a fugir do quê?” “O clima lá em casa está pesado?” ou “andas a malhar? Ou andam a malhar em ti?” Ficava um ambiente super-pesado com as insinuações que ela fazia que só se dissipava após a terceira imperial.
Um dia a Rita liga-me e diz: “adivinha o que eu descobri no bolso do B.?”
Eu: Droga?
Rita: “Também, aliás fumei e agora estou à espera que ele chegue a casa.”
Eu: Pedido de adesão para membro do Partido Social Teocrata?
Rita: Pior!
Eu: Um cartão de aficionado de tauromaquia.
Rita: Não chegas lá… pior do que isso! Um Cartão do Holmes Place. Acreditas que ele anda no Ginásio?
Tentei tranquilizar a Rita, a situação era grave e disse: “Deve haver uma explicação!”
No dia seguinte a Rita liga-me e diz: “Não passou de um susto, afinal o cartão não é dele, é de um amigo”
E este foi um assunto que nunca mais revisitámos!

Nesta fase da vida em que preferimos o mate ao brilho, precisamos de ter um ou vários médicos, começamos a responder “sim” às perguntas “toma alguma medicação?” e também ao “queixa-se de alguma coisa?”.
E quando nos fazem esta pergunta não querem saber se nos queixamos dos companheiros, dos filhos ou dos vizinhos, é mesmo se dormimos bem, se os pés nos incham… entre tantas outras coisas…
As conversas deixam de ser sobre os filhos (porque estes nos proibiram de falar deles), passam a ser sobre o estado de saúde dos nossos pais e das nossas enfermidades.
Mas importa falar, não importa do que, desde que continuemos a falar é sinal que continuamos a seguir o plano de nos mantermos em fuga.
Nesta fase da vida, os adultos assustam-se… com a contagem dos “entas”, e depois começam a repetir em voz alta que nunca gostaram tanto de si como acontece nesta fase da sua vida.
E por gostarem tanto de si começam por consultar cirurgiões plásticos, contratar um personal trainer (PT), fazer viagens de interiorização espiritual, organizar grupos de treino ou de caminhadas e tudo para fugirem aos que o realmente os assusta. (Nos assusta!) A proximidade vocês sabem do quê…
Fascina-nos a juventude e vamos nos movendo de forma a passarmos por mais novos, aliás há quem comece a escrever manuais de ajuda!
Cada um passa por esta fase de formas diferentes. Uns agarram-se ao que têm, outros procuram por algo que os realize, e como diz a música não são os únicos.
Importante é ter bem vigiada a visão, e para isso serve um bom oftalmologista. Sim é importante ter a saúde vigiada por bons profissionais, mas o mais importante na vida, aquilo que nos dá saúde, é mantermos por perto as melhores pessoas que conhecemos. E mantermos distantes todas aquelas que nos deixam doentes.  
Necessitamos de bons profissionais para cuidarem da nossa saúde e da nossa aparência, mas precisamos muito mais das pessoas que nos alimentam a alma.
Nesta fase da vida já aprendemos o quão importante é ter uma postura correta, e começamos a andar direitas. Já não deixamos que muitas coisas nos verguem.
Tentamos andar com a cabeça levantada e costas direitas a maior parte do tempo, e tão direitos que andamos que não vemos a enorme a poia que estava mesmo à frente, e bastava termos olhado para baixo.
E é isto mesmo, por melhor que pareça já sabemos que o melhor é aproveitar o momento porque em breve ou iremos pisar, ou irá chover, porcaria.
Mas estamos vivos!