segunda-feira, 30 de abril de 2018

FUGIR À MORTE TODOS OS DIAS CANSA – UPS! A ADOLESCÊNCIA TAMBÉM É ISTO!

Leiam com atenção porque só vou escrever isto uma vez.

Tinha acabado de fazer os meus 16 anos e a minha amiga Rita ofereceu-me uma caixa com duas prendas lá dentro. Uma era um bilhete para o concerto de Smashing Pumpkins, e a segunda vinha dentro de outra caixa com a seguinte mensagem: “já tiravas isso, não?”
Vocês não conhecem a Rita, mas ela é super ligada em pormenores. E eu pensei: “pronto é desta que vou ter de deixar de usar as pulseiras de pano”. Abri a segunda caixa, e para minha surpresa descobri um pack de 6 Gillettes. E outro cartão que dizia: “há quem use creme, ou cera, mas no tamanho que os teus estão, a Gillette é menos dolorosa.”
Confesso que fiquei com as lágrimas nos olhos. Ela era mesmo minha amiga!
E, foi nesse momento, que se fez luz. Descobri os pelos.
Descobri algo que sempre tinha estado debaixo do meu nariz, o buço. E debaixo dos braços, os pelos das axilas, e também a alcatifa que cobria as minhas pernas.
E posso dizer que a minha passagem pela adolescência foi menos penosa a partir do momento que os pelos deixaram de acompanhar o meu crescimento.
 (Obrigada Rita!)
Espero que vocês tenham a sorte de ter uma Rita na vossa vida. Isto porque os pais não são muito úteis nesta fase, porque para eles os filhos são os mais lindos e não crescem. E portanto, como bebés que sempre seremos, nunca teremos pelos. Mesmo quando eles se queixam dos pelos que deixamos cair pela casa e também daqueles que ficam presos no ralo da banheira.
E isto leva-me para outros pormenores que caracterizam a adolescência, e que também crescem nesta fase da vida. Por exemplo a curiosidade. Muitas experiências para fazer. A quantidade de cientistas que se revelam. Muita curiosidade para saciar.
 As saídas com amig@s, fumar, beber, namorar, sexo.
Mas vamos com calma, uma coisa de cada vez. Porque há quem faça tudo ao mesmo tempo e depois morra. Vamos, por isso, evitar constrangimentos e aborrecimentos porque só se vive uma vez!
Para se conseguir sobreviver o maior número de dias é bom perceber que, na adolescência, tem que se ser inteligente e resistente.
Passo a explicar.
Lembro-me como se fosse ontem quando tentei fumar pela primeira vez. Ia morrendo. Ninguém me explicou o que significava “travar” e quando me diziam que eu tinha que travar, eu deixava de respirar. Porque, para mim, travar é parar. E por isso eu parava de respirar. Não foi agradável. Talvez por isso, e também pelo seu sabor, o tabaco nunca me fascinou. Eu sei que vão ter que passar por esta experiência, e força, mas sejam inteligentes e não deixem de respirar por motivo nenhum. É isso que andamos a evitar. Alinhados? 
Ainda sobre o tabaco e os cuidados a ter, é importante não deixar nada nos bolsos. Algo que nos possa incriminar. Caso isto aconteça e se forem apanhados a inteligência irá safar-nos porque sabemos que os pais só querem ouvir NÃO É MEU! - “Não é meu, é da Rita. Sabes bem como são os pais dela, não são porreiros como vocês, por isso fui eu que trouxe para casa.”
Mas, muito importante, não recorram a esta desculpa mais do que duas vezes.
Devem ter sempre pastilhas ou rebuçados nos bolsos para alterar o hálito. E quanto ao cheiro da roupa e do cabelo esqueçam, só sai depois de várias lavagens a 60 graus.
Aproveito para esclarecer que no dia a seguir a uma saída não há nada de errado com a nossa voz, e não estranhem a cor do que sai do vosso nariz quando se assoam. Não há necessidade de telefonar para a SAÚDE 24. Consultem este Manual sempre que se esquecerem dos efeitos colaterais das ressacas.
Não é inteligente ir embriagado para as aulas. Não é. E quando descobertos serão denunciados aos pais o que é péssimo para a vida social. Eles perdem a confiança. E acreditem isto é o pior que pode acontecer. Acabam-se as saídas. Chegam os castigos, e os discursos sem-fim sobre a vergonha que caiu sobre a família. Uma desgraça!
Por isso, é muito importante manter as aparências. Ter boas notas! Ser do mesmo clube desportivo que o pai, e dizer todos os dias à mãe que ela é a mais bonita.
Outro pormenor que também aumenta na adolescência é o libido. Como todos sabem (principalmente os adolescentes) não é o sonho que controla a vida, mas sim as hormonas.
E se acham que exagero pensem nas explicações usadas para justificar os comportamentos dos adultos: se são insuportáveis é porque a vida sexual não lhe corre bem. Se estão bem- disposto é porque houve “festa”.
Há quem diga que os homens pensam em sexo 24 horas por dia. É pura mentira, eles também pensam em futebol.
Mas, aqui para nós, não são os homens, são as pessoas, que pensam em sexo. Em bom sexo. E aí é que entramos no busílis da questão. Quem é que tem bom sexo na adolescência? E com tantos adultos a terem mau sexo algo me diz que o problema começa aqui, na adolescência pois claro.
Namorem muito.
Perder a virgindade, meninas, não é bom. Não conheço uma única miúda que me diga que foi uma experiência maravilhosa.
A atrapalhação e a inexperiência não são boas memórias. Nesta fase da vida ainda falta a maturidade para apreciar e prolongar o momento. Assim, e para não chegar à fase adulta a ter mau sexo o melhor é ir com calma.
Contudo, e se se vai começar porque a curiosidade é muita, aqui ficam alguns alertas.  
Vamos por partes e aos poucos porque há sinais que nos revelam que tipo de namorad@ temos à frente. E ele há namorad@s que nos tiram anos de vida.

Namorad@s Shakespeare ou Camilo Castelo Branco
Há algo que nos atrai a quem diz que morre por nós, pelo amor que nos têm. Durante a adolescência ter um namorado que respira o amor que nos tem é, para mim, secante. Temos um mundo de descobertas para fazer.
Mas só podemos achar piada a isto, nesta fase da vida. Fora do contexto da adolescência quem nos fale de morrer por amor é alguém de quem queremos fugir. Mudemos de número de telemóvel, de hábitos e residência. Mais importante mudemos de namorado! 

Namorad@s Jane Austen ou Sophia Mello Breyner
Estamos completamente lixadas se estamos à espera de um Mr. Darcy ou de um amor transformador. Acreditar que isto é possível de acontecer, fora da adolescência, resulta em frustração. Meus caros na adolescência tudo parece possível. Beijar um sapo que afinal era um príncipe pode parecer real, e é mas em séries, romances e filmes.
O melhor é aprender a aceitar os defeitos. Aqueles que são possíveis de aceitar e descobrir o que realmente é importante. Quando se chega a esta idade, há coisas que já não crescem muito mais.  

Namor@dos Fernando Pessoa
Um dia procuram-te. Outro dia ignoram-te. Um dia não te largam, outro dia não querem saber de ti. Um mês depois aparecem com flores. E durante uma semana são o heterónimo mais apaixonado. Na semana seguinte surge o heterónimo cheio de questões e dúvidas. Próxima semana conhecemos o heterónimo agressivo e arrogante. E por aí adiante.
Para quem não gosta da monotonia tem aqui a pessoa ideal para partilhar uma vida, uma semana, ou um mês.
Para que definir quanto, quando e como? Certo?

Namor@dos Marques de Sade ou Oscar Wilde
Prazer garantido?! Loucura para recordar para o resto da vida? Não sei o que vos diga, destes só ouvi histórias. Mas aquelas que ouvi são para mais tarde recordar. Deixarão marcas com certeza e só rezemos que não sejam nem traumáticas, nem físicas.

Namorad@s Woody Allen, Monty Phyton, Eça de Queiroz, Miguel Esteves Cardoso e Ricardo Araújo Pereira.
Os meus favoritos. Não há drama. Existem piadas. Permite-se viver o que acontece sem grandes complicações. O drama serve para fazer as melhores piadas. Os melhores sketches. 
E lá diz a sabedoria popular que o melhor remédio é rir. Abusem destes remédios.


O meu conselho é que aproveitem esta fase pois só se é adolescente uma vez na vida. E por incrível que pareça as coisas a seguir tornam-se ainda mais complexas. E caso se mantenham iguais é porque alguma coisa não está bem.
Tudo a seu tempo, nas descobertas, sem e com juízo. Queremos ser adultos que vivem até aos 100 anos e cheios de conselhos para dar.
Aliás, ninguém quer acabar a cantar Norah Jones “… don't know why I didn't come.”
Eu pelo menos não quero… Mantenham-se por aí!

sábado, 31 de março de 2018

FUGIR À MORTE TODOS OS DIAS CANSA – A ADOLESCÊNCIA – A passagem pela Escola Secundária.


Se pensavam que o que ficou para trás foi o pior da vida, esqueçam. O pior está para vir. A partir deste momento não se trata só do que os outros nos podem fazer, mas também do que nós podemos fazer connosco.

Como antropóloga sei que a adolescência é uma fase de mudança na vida, é por isso um rito de passagem, e haveria muito a explicar e a dizer porque Van Gennep, Victor Turner e outro pessoal que fumava e bebia fixxe dedicaram mesmo muito tempo a este assunto, no entanto não abordaram a importância do papel da sobrevivência a esta transição, pois claro. Porque dava trabalho. Está mesmo a ver-se que esse cabe-me a mim. E eu, eu, estou sóbria há demasiado tempo para vos falar disto através da antropologia.

Talvez corra melhor se usar a filosofia. O Heráclito, esse foi outro chanfrado da cabeça, que resumiu isto tudo a um parágrafo. Disse ele: “Ninguém entra no mesmo rio uma segunda vez, pois quando isto acontece já não se é mais o mesmo. Assim como as águas que já serão outras.“ Esta é uma daquelas frases que resulta sempre, na fila de um autocarro, num primeiro encontro e até para terminar uma relação. Para impressionar qualquer género, idade ou culto.

Mas sabem quando é que conheci o Heráclito? Na adolescência, na Secundária, e em filosofia.  

Basicamente é isto, depois de entrarmos na fase da vida adulta, e de já não sermos os mesmos, e os locais deixarem de ser os mesmos, é nesse momento que damos valor aos tempos da nossa adolescência vivida na secundária.

Por isso leiam-me com atenção porque a adolescência justificará todos os nossos gestos, dos mais grandiosos aos mais medricas. É bom que se viva esta fase intensamente porque senão a superarmos morreremos, com a pior das mortes, a morte anónima. Ninguém vai querer saber de nós. Socialmente não influenciámos ninguém. Ninguém quis ser como nós. Estamos mortos. 
E a lápide dirá: “Aqui jaz a pessoa mais enfadonha que conheci. Tarde foi o dia que te foste.” 
E se alguém for ao nosso funeral é só porque se trata de uma falta justificada no trabalho, na escola ou poderá servir como desculpa para evitar um encontro onde não queremos estar. Nem mesmo a mais desesperada criatura que aguarda ansiosamente a doação de um órgão irá querer um dos nossos. 

Muito triste!

Eu espero quando morrer que a minha lápide seja parecida com aquelas talas de gesso que colocávamos quando partíamos a perna ou o braço, e onde se escreviam cenas bem fixxes. Espero que hajam excursões para visitar a minha sepultura, como se faz com o Jim Morrison.
Como quero ser cremada, e que as cinzas sejam lançadas nas serras selvagens do Gerês, é capaz de ser um pouco mais difícil a peregrinação às cinzas… mas olha, cada um sabe de si! E o querer tem muita força!

Mas o objectivo deste manual é partilhar ensinamentos para fugir à morte, e não para irmos ao encontro dela, só que é na adolescência que começamos a desgraçar a nossa vida. Ou que começamos efectivamente a viver. É quando as hormonas não param de nos enviar mensagens, e algumas delas são mesmo muito atrevidas.


Numa destas noites de miúdas, estava eu e a Rita perdidas de bêbedas, no Bairro Alto, à procura de uma casa de banho. Ou de um gajo giro, o que encontrássemos primeiro. E enquanto deambulávamos falávamos dos nossos tempos de secundária. E foi bom voltar a esse tempo porque foi aí que nos conhecemos. A Rita foi a cabra que foi dizer ao meu namorado, de então, que ele merecia melhor. Bitch! Quase que me deu cabo do arranjinho! Mas foi a partir desse momento que nasceu a amizade para a vida. Já sabia que para ela ninguém está à altura dos seus amigos. Foi também aí que ela iniciou esta relação com o álcool, e esta sua relação têm-nos mantido unidas.

Perceberam como coloquei num parágrafo o melhor que conseguimos na adolescência? Os dois ingredientes para nos ajudar a fitar a morte física e social? Amigos e Álcool.

Os amigos. Os amigos são aqueles que seguram o cabelo para vomitarmos, que seguram a nossa língua para puxar o vómito. São aqueles que nos seguram para não cairmos no enorme buraco que está à frente dos nossos olhos embriagados.

E o álcool? Esse nunca nos falha. Lembram-se quando os nossos pais curavam as nossas feridas com álcool? E aquilo ardia, e queimava, e nós gritávamos e eles diziam “se arde cura”, eu já naquela altura sentia, mas agora tenho a certeza, que o que era dito era uma enorme estupidez. O álcool é para beber e assar chouriços, tudo o resto em que é usado é puro desperdício.

Em resumo, os amigos seguram-nos e o álcool liberta-nos.

É também na adolescência que surgem os primeiros contactos com a sexualidade, pelo menos para alguns. Para aqueles que têm acne, bigode, cheiram e vestem-se mal, os que se esforçam para agradar, que usam óculos, sapatos ortopédicos, tem voz esganiçada e um mau corte de cabelo para esses a sexualidade a dois vai chegar, quem sabe. Talvez mais tarde, ou talvez nunca chegue. E mais, se acreditarem na reencarnação não têm motivos para se preocuparem, de todo, porque nesta ou noutra vida isso irá acontecer.

Para aqueles que iniciam a sua vida sexual nesta fase os meus conselhos são simples, não tentem fazer muitas coisas, nem com muitas pessoas, e muito menos tudo ao mesmo tempo. Não vai correr bem. Lá diz o ditado “depressa e bem não há quem”.

Mas vamos lá despachar este rito de passagem da melhor forma, e para isso vou continuar a usar a sabedoria popular.

Poderia com um único ditado popular abordar todos as boas práticas para superar a adolescência, com um simples “Diz-me com quem andas e eu dir-te-ei quem és.”Nerds? Surfistas? Góticos? Metaleiros? Betos? Hippies? Os do clube de xadrez? Os desportistas? Os do clube de teatro? Os do hip hop? Os deprimidos? Os frustrados? Os que nos fazem rir?
Diz-me se estás à frente do pavilhão ou atrás dele? E se estiveres atrás do pavilhão estás: a) curtir; b) a apanhar; c) a beber; d) ou a ser roubado?

Diz-me o que vestes e calças e eu te direi se vais sobreviver ao secundário. Diz-me que música ouves e eu te direi se vale a pena fugir à morte. Diz-me o que vês e lês e eu te direi se deves guardar isso para ti ou se podes partilhá-lo publicamente. E por aí adiante…


Outro ditado muito apropriado é “água mole em pedra dura, tanto dá que até fura”. 
Este ditado revela porque depois de dois anos a dizer “NÃO” ao tipo mais enfadonho que se conhece, se acabe por lhe achar piada. Este ditado também explica como a vontade de vomitar, só por cheirar álcool, é derrotada depois de muita insistência.
E acreditem em mim a intolerância ao álcool é uma praga. Quem não tolera álcool está condenado a passar por esta fase de uma forma mais dura, até porque as drogas leves são mais caras e não estão à venda no supermercado.

Há ainda o ditado “As palavras voam, a escrita fica”. 
Quantos cadernos se escreveram com disparates que trocámos entre nós. Quantas paredes foram espichadas, quantas mesas e cadeiras riscadas? A escrita ficou… até que fomos apanhados e obrigados a limpar a escrita que ficou desde o século passado, a nossa e de outros que nem tinham assim tanta piada…

Mas o ditado pelo qual tenho maior estima é “Quem canta seus males espanta.”
Todos nós em algum momento tivemos o coração partido pelo Cruz. O Cruz era um tipo encantador, que tinha imenso cabelo e estilo. E volta e meia ia lá a casa porque era amigo de um dos meus irmãos, de outra forma nem saberia que eu existia. Mas o que fazer porque o Cruz não estava nem aí, para o milhão de miúdas e miúdos que suspiravam por ele? O que fazer para ultrapassar um coração partido?
No meu caso a cura foi The Cure. O preto foi a minha cor. E o Robert Smith a minha esperança.

É no secundário que despertamos para a banda sonora da nossa vida. Os restantes anos servem para a refinar. E se alguém te tentar influenciar com hip hop ou rap ou outra coisa deste género lembra-te “que não há mal que sempre dure.”

E por fim, “Quem não arrisca não petisca".
A mentira é necessária: “Mãe vou dormir a casa da X. É claro que não vamos estar sozinhas.” Obviamente que não vamos estar sozinhas, nem chega a ser uma mentira. Então e o pessoal que convidamos para aparecer? 

As cábulas, quem nunca usou uma cábula que atire a primeira pedra. Aquela adrenalina que se vive quando professor se aproxima, e pensamos “já fui”. Aquela sequência de segundos em que a nossa vida acabou!
Pessoalmente não sei o que é isso, mas contaram-me que quando resulta se reflecte na nota final e pode ser decisiva. 

Arriscamos muito quando fazemos trabalhos de grupo, que contam para a nota. Quando passamos horas e horas a falar destes e daquelas e das maiores futilidades do mundo, e no final desse dia, sem fazer nada para o trabalho, acabamos por ter os 30 segundos mais produtivos da história, que se resumem à distribuição de tarefas para se fazer em casa.

Nada importa, acreditem, senão arriscarem estão a perder oportunidades de criar memórias.   

Lembrem-se do Heráclito porque não podemos confiar na água, nem em nós e muito menos no tempo.  
O objectivo é viver,  intensamente, o maior número de dias possíveis.

Precisamos pois ter alguns cuidados. Mas mantenham-se por perto porque ainda há muito para reter sobre a adolescência e sobre a vida. 

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

FUGIR À MORTE TODOS OS DIAS CANSA – A INFÂNCIA

A vida é difícil. Não vou enganar ninguém. E também não vou aligeirar os factos, a começar porque a taxa de mortalidade infantil é um daqueles indicadores que revelam em que tipo de país se acabou de cair. E não é só cair num país mais bem preparado, para receber crianças, é preciso uma sorte FDP para, em primeiro lugar, cair numa família preparada para ter crianças.
Assim, a questão de sobrevivermos aos primeiros anos de vida é, já por si, um feito.
Ainda bem que não estamos sozinhos no mundo. E esta é uma das coisas que aprendi bem cedo é que tudo na vida tem mais piada quando se experimenta acompanhado, ou quando temos alguém com quem partilhar.
E voltamos ao princípio. Como é que cheguei a esta conclusão?
Foi no verão passado que eu e os meus amigos estávamos deitados numa praia, tínhamos bebido fixxe e fumado o que havia. Ou teria sido o contrário? Fumámos fixxe e bebemos o que havia? Ninguém se lembra. Mas o que recordo é que a minha amiga Rita queria abraçar pessoas e eu avisei-a: “tem cuidado, com essa merda dos afectos, olha que ainda vomitas em cima de alguém todo esse carinho.” Dito e feito, a Rita estragou-nos o verão. Ninguém se aproximou de nós o verão inteiro.    
E foi nesse verão que pensei o que seria da minha vida, ou o que seria a vida de uma pessoa, se estivesse só no mundo. Alguém que não tenha com quem partilhar.
Reflecti sobre a vida, e conclui que tudo na vida é melhor acompanhado. Reflecti melhor e conclui que tudo é melhor acompanhado excepto quando se trata de mau sexo. Nessa situação o melhor é fazer sexo sozinho, é menos constrangedor.
E isso levou-me a outra questão. De que maneira posso explicar conceitos a crianças, quando estas ainda não têm maturidade para os entender. Como explicar a importância de fugir à morte, ou ter bom sexo, quando o mais importante, na infância, é chegar ao fim do dia sem ser apanhado a comer macacos do nariz?
E foi assim que pensei que tinha que simplificar as explicações. Porque as crianças não têm tempo para a complexidade da vida.
1ª – 2ª E 3ª INFÂNCIA
A infância é determinante no tipo de adulto que nos vamos transformar. E vocês já estão a pensar “eh que exagerada!” Mas acompanhem-me nos exemplos mediáticos Ana Malhoa, Bruno de Carvalho, Gustavo Santos e por aí adiante. Convencidos agora?
É na infância que descobrimos se vamos fazer parte do gang ou se vamos ser roubados por ele.
É em casa que nos preparamos para o que vem aí. É muito importante conhecer os adultos que irão cuidar de nós, os pais. Eles são a chave para tudo. E há pais para tudo.      
Os-pais-que-não-batem-não-gritam-e-raramente-se-irritam.
Estes são pais que dizem orgulhosamente: “nunca bati no meu filho”. Com estes pais não precisas de te preocupar com o material do calçado que tens em casa, nem em esconder objectos cortantes e pontiagudos. Mas não penses que não vais apanhar porque vais, só que não é dos teus pais.  
Os-pais-cães-de-guarda.
Este tipo de pais protectores pode envergonhar-nos, mas também pode salvar-nos de outras pessoas chatas como eles. Não há muita coisa que se possa fazer para contrariar o instinto de protecção, e com este tipo de pais o melhor que pode acontecer é a chegada de vários irmãos.
Os-pais-acho-que-me-esqueci-de-alguma-coisa. 
São aqueles pais que não querem saber. São distraídos e irão esquecer-te frequentemente, mas não é por mal.
Esquecem-se de usar roupa. Dos nossos nomes. Da cara dos nossos amigos. De fazer comida. Do banho. De nos deixar na escola e até de nos irem lá buscar.
Os-pais-estás-aqui-estás-a-apanhar.
Estes pais ameaçam e batem. Pensam que só aprendes a apanhar. E com estes não há muito a fazer. Basicamente o caminho é sair de casa enquanto a maioria dos órgãos do corpo ainda não faleceram e ainda temos a dentição completa.   
Os-pais-que-têm-uma-história-para-tudo
Estes, como o título bem os descreve, são aqueles pais que contextualizam tudo com algo que lhes aconteceu: “então e a mim? Devias ter visto quando eu tinha a tua idade”; “com a tua idade já voava, falava três línguas e mantinha dois part-time de 8 horas cada”.
Não te preocupes serás um falhado e um inútil, mas não serás o único lá em casa.
Os-pais-então-e-o-meu-filho?
Como a própria designação indica são aqueles pais que quando alguém fala dos seus filhos, respondem “então e o meu filho?”. Basicamente tratam-se de pais de crianças que aos 5 anos falam 5 idiomas, jogam xadrez, tocam piano, e já leram os sete volumes "Em busca do tempo Perdido", de Marcel Proust, duas vezes!
Este é o meu tipo de pais preferido, confesso, com eles não precisamos de nos esforçar muito. Já somos os maiores, mesmo quando somos os mais baixos da sala. 
Conhecer bem estes estes adultos é uma estratégia de sobrevivência, mas não é única. 
O facto de ter crescido na Amadora preparou-me para os desafios da vida. Retive os melhores ensinamentos para poder partilhar; e extraordinariamente estes ensinamentos são replicáveis em qualquer local do mundo, e válidos para todas as crianças. Chamei aos meus ensinamentos “os dez mandamentos” podiam ser mais, mas na altura que os escrevi só tinha um talão do supermercado à mão, e tinha sido uma compra pequena.
OS 10 MANDAMENTOS
1 º Mandamento: “Conhece-te bem”
Facilita imenso nascer inteligente, mas este pode não ser o nosso caso.
Deixo alguns conselhos úteis para ultrapassar aquelas que podem ser as nossas limitações.
É muito importante ver bem porque sem este sentido minimamente desenvolvido podemos facilmente morrer atropelados por um carro, por um triciclo ou de humilhação diária. Somos considerados burros porque não conseguimos ver um boi do que a professora escreve e a alternativa é usar óculos. Não interessa que modelos de óculos que vamos usar porque  nenhum resiste ao murro do Jójó.
Outra limitação pode ser a roupa que os nossos pais escolhem para vestirmos, e já é tarde para mudar de pais, a minha sugestão é chutar pedras, aproveitar todos os arames e paredes para nos esfregarmos. Comigo também resultou colar pastilhas elásticas em calças, fatos-de-treino e outros pedaços de pano aos quais nunca pude chamar roupa.
E por último, o penteado que os nossos pais nos fazem, ou pior que pagam para nos fazerem. O corte de cabelo é determinante para o nosso futuro. Corte de cabelo como “cabeça de tigela ou de capacete”, “cabelos com peidos” (remoinhos são FDP), caspa às camadas, cabelo oleoso próprio para fritos, e o mais piroso de todos… o risco ao meio. O pior de tudo é que mesmo quando fizerem parte do passado haverá sempre alguém que o irá recordar. A estratégia para sobreviver é conhecer-se a si o próprio, o seu cabelo, os seus pais e muito importante quem são os maiores piolhosos do sítio. Não há cabelo que sobreviva a uma praga de piolhos. Palavra de Marta!    
2 º Mandamento: “Não serás filho único”
Este é talvez o mandamento mais difícil porque é difícil partilhar os brinquedos, as atenções, o lugar no sofá e o comando da televisão, no entanto acho que é sábio. Com um irmão nunca estamos sós, para o bem e para o mal. Ele pode ser nosso cúmplice, mas também pode ser a nossa vítima. Com um irmão perto há sempre alguém a quem deitar a culpa.
Se for um irmão mais velho podemos usá-lo, fora de casa, para nos protegermos: “olha que vou dizer ao meu irmão mais velho e ele vai partir-te a boca (TODAAA).” Mesmo quando o nosso irmão mais velho é o primeiro a bater-nos.
Ter um irmão/irmã traz outros benefícios, por exemplo usar as roupas deles. Não que saiba de experiência própria, mas é importante que eles NUNCA descubram que vestimos a sua roupa. Que lhe colocamos nódoas, que a rasgámos, ou até que perdemos aquele casaco de ganga da Levis … eles não podem desconfiar, NUNCA.
E porque sem um irmão temos menos uma desculpa para culpar os nossos pais, menos assuntos na consulta de psiquiatria e menos histórias para recordar.
3 º Mandamento: “Diz-me do que gostas que eu amanhã trago”
“Queres ser meu amigo?” Pode resultar em Telheiras, mas na Amadora não resulta. Alguma criança que diga isso está sujeito a apanhar forte e feio e à frente de todos. Na Amadora o que funciona é o suborno, mas subtil. Deves saber o que é que os "maus" gostam e como se tratasse de um altar deves deixar a tua oferenda para acalmar a ira destas feras, sempre, até eles te ignorarem.
Fingir que era autista ou que tinha epilepsia também resultou.   
4 º Mandamento: “Escolhe bem os teus amigos”
Outras dicas para sobreviver à infância é nunca estar só, ficar em locais iluminados e evitar atalhos.
Seguem alguns truques que nos mantêm sãos e salvos: no berçário não trocamos a chucha, na creche não aceitamos viroses e outras maleitas; e na primária escolhemos para nossos amigos os miúdos mais fortes , e os maiores da sala.  
É tudo uma questão de sobrevivência. E o segredo é não apanhares porque estavas a olhar ou mesmo a jeito para apanhares.  
5 º Mandamento: “Aprende a correr”
Correr sem olhar para trás. Quando és bebé as pessoas estão muito ansiosas pelo dia em que começas a andar, mas isto está tudo errado. Se andares quando te encurralam para te roubar, já foste!
Hoje seria mais saudável se tivesse corrido sempre que aqueles grupos de miúdos me perseguiam para apalparem. Mas como já dei a entender este sempre foi o meu ponto fraco. Putos aprendam com os meus erros!
6 º Mandamento: “obrigada e desculpe são duas palavras”
Foca-te nisso. Não te deixes formatar. Estas palavras são incontornáveis todos vão querer ouvir-te dizê-las e existirão momentos que parece que a tua vida depende disso. Mas todos sabemos que as desculpas evitam-se, e ser obrigada a agradecer é ridículo.
Deixa-te de merdas e não tentes agradar. Não é assim que gostam mais de ti. Nestes anos de vida que levo nunca ninguém me disse: “eh pá gostava que aquele tipo me fizesse um filho porque ele é tão educado, antes de me penetrar pede por favor, durante pede-me desculpa pelo incómodo causado, e no fim agradece-me sempre”. Não, isto nunca aconteceu, nem durante as maiores bebedeiras!
7 º Mandamento: “o karaté não te serve de nada o que conta é a velocidade”
O karaté não serve para nada quando eles são 10 e tu estás sozinho por isso quando os teus pais decidirem qual a actividade que deves frequentar, não te esqueças que Portugal teve campeões mundiais de atletismo e no Karaté estamos sempre a apanhar.
8 º Mandamento: “Não te deixes apanhar”
Podes comer macacos directamente do nariz, fazer xixi na cama até à adolescência, ou até mentir, mas o importante é que não seres apanhado. Vai haver sempre alguém que irá relembrar que o fizeste, e uma vez na net deixaste de ter futuro.  
9 º Mandamento: “o meu clube é o mesmo que o do Jójó”
O Jójó era o tipo que todos conhecíamos de nome, e que não queríamos conhecer pessoalmente porque já sabíamos que nunca mais iríamos esquecer esse momento.  E não era porque ele era o homem dos nossos sonhos… é porque com ele acabávamos sempre a pedir clemência: “Jójó fica com o dinheiro e com o pão que estava a comer, mas deixa-me vivo e deixa-me ficar com os dentes da frente”.  
10 º Mandamento: “O tamanho não conta.” 
Primeira coisa que aprendemos é que o tamanho não conta, o que conta é a atitude. É este pensamento que nos vai manter vivos na prisão. Sim, mesmo os betos do CDS e do PSD da Amadora sabem isso. E também sabemos que acabaremos presos um dia, obviamente por diferentes tipos de crimes. Mas a prisão está no nosso futuro. Prisão a um partido político, a horários, a rotinas. A atitude é o que conta na estrada, nas relações, na vida.



É importante entender que enquanto evitamos a prisão, estamos a fugir à morte e se conseguimos sobreviver aos nossos pais, ao Jójó, e à infância, existem grandes probabilidades de fazer isto mais uns dias.
Fugir à morte durante a infância, sem saber que é disso que se trata, prepara-nos para as próximas etapas da vida. Se chegámos à fase seguinte da vida é porque isto está a correr bem.
Espero que possam utilizar estes conselhos com filhos, netos, primos, sobrinhos, amigos, filhos de amigos, irmãos mais velhos, e outras pessoas que ainda não tenham percebido que quando tudo falha, a única fórmula que resulta é correr, mas no sentido correto.