segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

XII- FUGIR À MORTE TODOS OS DIAS CANSA – UPS!


        Sobrevivemos aos nossos pais, aos tempos da Escola Secundária, a maus cortes de cabelo, a péssimas escolhas, escapamos ao Jójó, curámos desilusões, frustrações e maleitas, a má genética, assistimos a muitos desaparecimentos pelo caminho, resistimos aos filhos, aos sobrinhos, aos maus professores, a maus ambientes de trabalho, a maus exemplos, ao mau vinho, às misturas, mau sexo, péssimos conselhos, Dj’s que nos arruinaram a noite… e ainda assim continuamos a ter que fugir porque as provas continuam.
        Com mais ou menos fôlego continuamos a fugir DELA, todos os dias. Mas é inevitável sentir que por mais que fujamos aproximamo-nos desse momento.
E os sintomas de que estamos perto dela… daquela da qual não se diz o nome… manifestam-se de diferentes formas e algumas são bem inoportunas: flatulência, incontinência, falhas de memória, redução de audição e de visão, ausência de paciência, lentidão, aumento considerável do uso de diversas drogas (e todas prescritas!) para diferentes maleitas, e a pior de todas… a redução do consumo de álcool por causa da medicação.
        Outro sinal que nos indica a sua proximidade é a redução do interesse do sexo oposto. Deixamos de sentir que olham para o nosso peito, pernas e rabo, existe uma substancial redução de convites para saídas, que é proporcional ao aumento da oferta de lugares para nos sentarmos. Ouvimos também, porque a falta de audição não nos poupa, os gritos: “Deixa a Senhora passar”, ou “Cuidado com a velha:”
        Descobrimos que ninguém acha piada aos velhos, no geral, porque eles babam, porque contam sempre as mesmas histórias e porque, em particular, os únicos velhotes fixxes que existem somos nós, todos os outros são uma seca, pelo menos é o que pensamos dos nossos pares.
        Basicamente a vida continua a acontecer com a repetição ininterrupta das mesmas situações.
Só que agora estamos na Terceira Idade. Na primeira idade não tínhamos dentes; na segunda idade se não fomos rápidos ficámos sem dentes, com um dos murros do Jójó; e na terceira idade, se o Jójó não nos partiu os dentes na altura, eles acabarão por cair.
Passamos a maior parte do tempo ora em hospitais, ora em Centros de Saúde, mas deixamo-nos de preocupar com a roupa interior que vestimos quando vamos ao médico, porque em vez do constrangedor “dispa-se” passamos a ouvir: “Não precisa de se despir, puxe só a camisola para cima”.

Existem aquelas creches para as pessoas da terceira idade, os Centros de Dia, e ainda os Colégios internos para os casos mais complicados, designados como Lares.

Telefonei para a Rita porque estava angustiada com os programas que passavam na televisão e disse: “Rita não aguento mais aqueles dois, eles não comunicam, eles guincham”
E a Rita disse: “achas? Deve ser o teu aparelho de audição que está mal regulado. Olha que eu com a idade deles era bem mais barulhenta!”
- Rita que disparate, essa tua demência está cada vez pior, nem sei porque te ligo… Tu nunca foste apresentadora de televisão!
- Mas do que é que estás a falar? Não estás a ver o canal Playboy?!
E novamente agradeci a Rita na minha vida, ao longo de todos estes anos, a Rita manteve-se igual a ela própria.

Como os estudos revelam que as mulheres vivem mais do que os homens, eu e a Rita cedo pensámos acautelar o nosso futuro. Contudo, como somos boas pessoas e tratamos tão bem os nossos homens, eles duram e duram, mas agora não nos importamos com isso, porque as oportunidades já não fluem como antigamente. Antes do problema de incontinência. 
Mas como estava a dizer, eu e a Rita acautelámos esta fase da vida por criar memórias, também conhecidas como S E X O, D R O G A S E R O C K N’ R O L L.
E agora vivemos uma boa parte das nossas tardes a recordar esses tempos e a dar conselhos aos nossos netos sobre tudo o que pode irritar os totós dos pais deles!
Outra coisa que eu e a Rita também fizemos foi Cursos de iniciação à espiritualidade. Não resultou porque tínhamos que ficar em silêncio mais tempo do que aquele que nos era possível.
Depois resolvemos conhecer a religião que melhor se adaptava à nossa forma de ser, visitamos várias igrejas e locais de culto, a Rita fazia sempre a mesma pergunta, e ainda na entrada: “Como é que as pessoas morrem aqui?”
Avisei a Rita que ela tinha que reformular a questão, e ela passou a perguntar: “eu não quero ir para o céu, vocês aqui vão para onde quando morrem?”
A Rita tinha como objetivo encontrar uma religião que nos garantisse que quando morrêssemos teríamos 100 homens viris pela eternidade. Ninguém lhe conseguia garantir isso. Pelo contrário houve um pastor que lhe disse que aquilo que ela queria era um pecado mortal. A Rita olhou para ele fixamente e perguntou: “o que é que conhece que seja pecado e não seja mortal?”. Foi a última vez que entramos naquela igreja!  
Rapidamente percebi que o melhor era não nos metermos por esses caminhos, pelo menos se queria continuar a rasteirar a morte.

Depois temos Universidades para a Terceira Idade, Juntas de freguesia e outras Associações com arraiais para idosos sem próteses, e ainda discussões sobre o envelhecimento ativo onde nunca vi discutirem a importância do sexo. O que me levou a gritar EUREKA EUREKA, já sei porque é que os idosos querem morrer!
        Por isso veio à minha cabeça que não podemos deixar, em nenhum momento da vida, de decidir. Decidir o que, com quem, onde e como.
        O meu objetivo é que quando chegar o meu dia, alguém presente diga: “esta gozou até ao último suspiro”.

        Importante também é não ficar só. A solidão é muito triste. Temos muito tempo para ficar sós pela eternidade afora. Eu sei que mais vale só do que mal acompanhado, mas não ter ninguém na vida com quem partilhar é muito triste.
        Outra coisa importante é planear a morte com tempo e confiar essa informação a 3 pessoas diferentes. Decisões como quem vamos convidar para o nosso funeral, a indumentária que vamos usar, a música que vai passar, quem é que nos vai acompanhar, quem vai celebrar a cerimónia de stand up, quais as bebidas que vão ser servidas e quem vai confecionar os pratos que se vão servir, entre outras decisões. Deixar estas escolhas já feitas deixou-me mais tranquila.
        Há um ditado popular que diz: “pagar e morrer quanto mais tarde melhor” e vocês sabem como levo os ditados a sério, por isso evito andar com dinheiro, Deus me livre de antecipar pagamentos.  
Não está nas nossas mãos, e os nossos pés às vezes não são tão rápidos como queríamos que fossem. Mas temos que dar o nosso melhor.
Podem continuar a utilizar os mesmos truques de sempre. “o jogo é meu e as regras são minhas”; “estou no coito”
(será mesmo isto que disse a vida inteira quando jogava às escondidas? Eu e todos. Coito?! Claro que se for coito ninguém tem que ir para lá).
Ou ainda, “RIP a mim não! Apanha primeiro aquele chato, vá que eu depois arranjo-te umas cenas fixxes para curtires”.

Utilizem a desculpa que der mais tempo para nos mantermos em fuga. 
Prometam-me uma corrida de andarilho!

Prometam-me isso e eu prometo que vos convido para o meu funeral daqui a muito, muito tempo! Vai ser B R U T A L!
FIM

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

XI- FUGIR À MORTE TODOS OS DIAS CANSA – A ternura dos "entas" e tais...


Esta é aquela fase da vida em que os filhos continuam a crescer em tamanho, em peso, e nos disparates.
Esta também é aquela fase da vida que os adultos têm menos paciência para MERDAS, mas como não querem esticar já o pernil puxam o autoclismo, mental ou verbalmente.   
Esta fase coincide com a abertura do baú “de desejos falhados ou por concretizar”. Momento em que pensamos que agora sim, agora é que vamos fazer AQUELE curso, aprender a tocar um instrumento, aprender a cantar, tirar a carta de condução, ou ainda uma formação para atores amadores, no meu caso é a altura para fazer um curso de sapateado.
É também, neste momento da vida, que pensamos que agora já podemos fazer AQUELA viagem, sozinha, com amig@s, ou a dois, porque os filhos já não querem fazer férias connosco. CERTO?
ERRADO!
Quando a prole ouve que é uma viagem à Patagónia não só nos DIZEM que nos vão acompanhar como também nos INFORMAM que já convidaram @s vadi@s d@s namorad@s para irem connosco… e descobrimos rapidamente que o aumento de pessoas no pacote turístico afinal só nos permite ir de férias até à Isla Cristina.

Pensamos também que vamos conseguir descansar mais porque eles já têm chave de casa e podem entrar e sair sem nos incomodar… mas os transportes estão caríssimos e se gastam no táxi não podem comprar álcool, e assim DECIDEM que o melhor é acordar um dos progenitores para proceder à recolha e distribuição da “carga”.
É também nesta fase que resolvemos que vamos sair mais, fazer jantares com amigos, saídas pela madrugada afora, cinema, teatro, passeios, passar tempo com os nossos amigos… e quando pegamos no telemóvel descobrimos que alguns dos nossos amigos ou mudaram de vida, ou de país, ou de casa, ou de sexo, ou padecem de alguma maleita e ainda outros deixaram-se apanhar pela figura da ceifa na mão!  

Não sei se se recordam da Rita, mas a Rita para além de porreira é uma inspiração. Uma das grandes virtudes que caracteriza a Rita, é a sua insensibilidade para merdas, não tem feitio para isso. Aliás nunca teve!
Há uns tempos atrás ligou-me e disse: “Temos que ajudar a J. Temos que sair com ela e animá-la porque o estupor do G. pediu-lhe um tempo. Eu dava-lhe com o tempo, e com tudo o que tivesse à mão, naquela careca. Sabes bem que nunca o suportei!”
Respondi “Claro que sim Rita, aliás sei eu e todos os convidados do casamento deles, onde gritaste: ó tiras a mão daí ou parto-te o braço! Ainda hoje se comenta isso!”
No fim do telefonema fiquei contente com a sua preocupação com a J.. Sempre ouvi que “ser mãe” torna as mulheres mais sensíveis e senti que a Rita estava nesse ponto, naquele de ouvir uma amiga que precisava de desabafar.
Combinamos fazer uma peregrinação pelo Bairro Alto, de tasca em tasca, porque precisávamos de recuperar a nossa fé. Eu cheguei com a J. e a Rita chegou mais tarde, mas ainda a tempo de apanhar a J. a chorar. A Rita pediu duas imperiais e bebeu-as uma atrás da outra. Perguntou se já tínhamos pedido alguma coisa e tratou de pedir por nós e de manter a mesa sempre cheia de álcool. E dizia para a J. “podes contar sempre comigo para te encher o copo” e assim o fez durante toda a noite. Às páginas tantas perguntei-lhe “Rita não queres ouvir o que ela tem para dizer? Não foi por isso que viemos?”
A Rita disse: “ Não, nós viemos porque esta é a desculpa perfeita para sair de casa e deixar os 4 putos com o pai. E o pai não pode contestar porque eu tenho o argumento certo do meu lado: “Olha o que ele lhe fez? Os homens não valem nada. Ficas a dever-me uma. E ai de ti que venhas com essa do “preciso de um tempo!”
As separações acontecem e por diferentes razões. Umas porque mudam de tendência sexual, outras porque se apaixonaram por outras pessoas, outras porque se apaixonaram por si e descobriram que merecem mais na vida, outras que começaram a cultivar um enorme apreço por sossego, e acrescentar a isto tudo a má qualidade dos jogos de futebol que em nada contribuem para alegrar o seio familiar.

Descobrimos que existem pessoas que não estão bem com a vida que têm e gostam de desportos radicais por isso arranjam namorad@s consideravelmente mais nov@s. Porque dizem ser men@s chat@s, são mais compreensiv@s e não procuram defeitos. E depois surge o dia em que começam a viver juntos e que por vergonha escondem como foram intrujad@s. E com os segundos casamentos vêm os segundos filhos. E aquela paz que havia cada quinzena com a guarda partilhada desaparece. Todos os fins-de-semana são fim-de-semana com crianças, volta tudo ao mesmo, mas com mais crianças e mais anos em cima. Menos cabelo, menos audição, menos dentes, menos visão, e menor desempenho.

E fazer uma árvore genológica com esta miscelânea de relações? Dá uma tese de doutoramento!


Sempre que saímos com amigos, e que os nossos amigos diziam: “agora comecei a correr” ou “agora inscrevi-me no ginásio” a Rita respondia: “então? andas a fugir do quê?” “O clima lá em casa está pesado?” ou “andas a malhar? Ou andam a malhar em ti?” Ficava um ambiente super-pesado com as insinuações que ela fazia que só se dissipava após a terceira imperial.
Um dia a Rita liga-me e diz: “adivinha o que eu descobri no bolso do B.?”
Eu: Droga?
Rita: “Também, aliás fumei e agora estou à espera que ele chegue a casa.”
Eu: Pedido de adesão para membro do Partido Social Teocrata?
Rita: Pior!
Eu: Um cartão de aficionado de tauromaquia.
Rita: Não chegas lá… pior do que isso! Um Cartão do Holmes Place. Acreditas que ele anda no Ginásio?
Tentei tranquilizar a Rita, a situação era grave e disse: “Deve haver uma explicação!”
No dia seguinte a Rita liga-me e diz: “Não passou de um susto, afinal o cartão não é dele, é de um amigo”
E este foi um assunto que nunca mais revisitámos!

Nesta fase da vida em que preferimos o mate ao brilho, precisamos de ter um ou vários médicos, começamos a responder “sim” às perguntas “toma alguma medicação?” e também ao “queixa-se de alguma coisa?”.
E quando nos fazem esta pergunta não querem saber se nos queixamos dos companheiros, dos filhos ou dos vizinhos, é mesmo se dormimos bem, se os pés nos incham… entre tantas outras coisas…
As conversas deixam de ser sobre os filhos (porque estes nos proibiram de falar deles), passam a ser sobre o estado de saúde dos nossos pais e das nossas enfermidades.
Mas importa falar, não importa do que, desde que continuemos a falar é sinal que continuamos a seguir o plano de nos mantermos em fuga.
Nesta fase da vida, os adultos assustam-se… com a contagem dos “entas”, e depois começam a repetir em voz alta que nunca gostaram tanto de si como acontece nesta fase da sua vida.
E por gostarem tanto de si começam por consultar cirurgiões plásticos, contratar um personal trainer (PT), fazer viagens de interiorização espiritual, organizar grupos de treino ou de caminhadas e tudo para fugirem aos que o realmente os assusta. (Nos assusta!) A proximidade vocês sabem do quê…
Fascina-nos a juventude e vamos nos movendo de forma a passarmos por mais novos, aliás há quem comece a escrever manuais de ajuda!
Cada um passa por esta fase de formas diferentes. Uns agarram-se ao que têm, outros procuram por algo que os realize, e como diz a música não são os únicos.
Importante é ter bem vigiada a visão, e para isso serve um bom oftalmologista. Sim é importante ter a saúde vigiada por bons profissionais, mas o mais importante na vida, aquilo que nos dá saúde, é mantermos por perto as melhores pessoas que conhecemos. E mantermos distantes todas aquelas que nos deixam doentes.  
Necessitamos de bons profissionais para cuidarem da nossa saúde e da nossa aparência, mas precisamos muito mais das pessoas que nos alimentam a alma.
Nesta fase da vida já aprendemos o quão importante é ter uma postura correta, e começamos a andar direitas. Já não deixamos que muitas coisas nos verguem.
Tentamos andar com a cabeça levantada e costas direitas a maior parte do tempo, e tão direitos que andamos que não vemos a enorme a poia que estava mesmo à frente, e bastava termos olhado para baixo.
E é isto mesmo, por melhor que pareça já sabemos que o melhor é aproveitar o momento porque em breve ou iremos pisar, ou irá chover, porcaria.
Mas estamos vivos!

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

X - FUGIR À MORTE TODOS OS DIAS CANSA – FILHOS!

Os filhos são tudo. E não são nada. São tudo porque chegam de repente e ocupam tudo. O espaço que estava disponível para eles, e ainda aquele que eles oportunamente preenchem, empurrando daqui e dali. Não são nada porque assim como chegam também desaparecem, e quase sempre com os vadios dos amig@s e d@s namorad@s. Levam o dinheiro da nossa carteira, e as chaves do nosso carro e com sorte aparecem para tomar banho. Sabemos que passaram por casa por causa da loiça, dos pêlos, e da roupa suja espalhados pela casa.  
Os filhos revelam o que há em nós, o melhor e o pior. Os nossos medos, a nossa paciência, a capacidade de perdoar e também os nossos limites.
E começa tudo no princípio dos princípios… ainda na maternidade quando nos dizem “ele não quer sair, faça força” ou então quando dizem “ele já está com a cabeça de fora, não respire!”. Andámos a ver o filme durante nove meses, mas é naquele momento que descobrimos quem é que, no final, terá o poder na mão. Quem é que vai mandar, e garantidamente não vamos ser nós….  
A vida torna-se um pesadelo quando somos apanhados no papel de pais. Está tudo estragado. A vida acabou. Os amigos desaparecem. As noites são longas e não são ao som de rock n’rol. O álcool é proibido. O sexo selvagem é um mito. A vida sem horários ou rotinas acabou-se. E é neste momento que temos que pensar como sobreviver ao fim de tudo. Ao fim da vida como a conhecíamos.
Sabem quando têm uma dor-de-cabeça e dizem “vou descansar um pouco para ver se fico melhor!”, ou quando ficamos insuportáveis porque não tomámos o pequeno-almoço às horas que queríamos?, ou quando não fazemos o jantar porque não nos apetece cozinhar? Ou quando intervalamos, um dia inteiro, ora na cama, ora no sofá, sem fazer nada? Passar um dia no cinema? Ler um livro num ápice? Conhecem esta sensação de não ter nada programado? Esses dias, esses maravilhosos dias. Onde estão eles? Onde ficaram?
ESSES DIAS ACABARAM!
ACABOU A PRAIA SEM HORAS, SEM SACOS, SEM COMIDA, SEM CHAPÉU-DE-SOL!
ACABARAM-SE OS BANHOS RELAXANTES!
ACABOU-SE O SEXO ESPONTÂNEO!
A VIDA ACABOU…
Como a conhecíamos…
A vida fica ainda pior, quando se é “a mãe” na relação. Quando tudo depende da mãe. A roupa, a loiça, a comida, o bebé e até o animal da estimação. As mães não sabem o que é planear porque o imprevisto dá voltas ao planeamento. Tenho para mim que todas as mães que conseguem sair de casa vestidas são mulheres felizes, e sem nódoas ou bolçado, essas são as verdadeiras mulheres abençoadas!
Ser “o pai” na relação é estatuto, é conseguir sair de casa quando apetece e com banho tomado. Sair às horas que precisa. Conseguir ouvir as notícias e pensar sobre elas. Ser capaz de dormir uma noite inteira sem interrupções.
E como tudo na vida, ser “o pai” ou “a mãe” na relação não depende do género, depende da atitude!  
OS PRIMEIROS TRÊS MESES
Dizem os livros que os bebés comem de 3 em 3 horas e dormem a maior parte do tempo. Alguém informou os bebés que é isto que se espera deles?
A maior parte do tempo os bebés andam perdidos, porque não viram essas regras em lado nenhum, e depois como ainda não se sabem explicar choram, e choram, e choram. E quem é que suporta esta confusão? A Mãe da relação! Porque o Pai da relação dorme que nem uma pedra!
Sobrevivemos aos nossos pais, ao Jojó, a maus cortes de cabelo e aos chumaços, à música techno, a questão é saber se conseguimos sobreviver a estes seres incríveis, o pai e o bebé.


Combinei sair com a Rita e com os nossos bebés. Combinamos tudo para sair de casa ao mesmo tempo.
Banho tomado? – Sim
Bebés mamados? Sim
Roupa vestida? Sim
Sapatos nos pés? Sim
Malas, sacos, e alcofas prontas? Sim
Tudo pronto para sair de casa.
Espera, que cheiro é este este que vem do bebé? Que barulho foi este?
E toca a recomeçar tudo porque o bebé lembrou-se de fazer o cocó do mês!

Três horas depois lá nos encontramos, ambas parecíamos medicadas, sedadas, anestesiadas. Estávamos péssimas! A primeira coisa que a Rita me disse foi: “Fecha a braguilha.”
A segunda coisa que disse foi: “Já não chegava não poder beber álcool, agora não posso beber café… parece que faz gases.”;
A terceira: “sabias que existem sites onde encomendas comida e que a levam a casa?” Quarta: “tens feito os exercícios do períneo?”
Sem ter conseguido responder a uma única pergunta feita, ela avançava impiedosamente para a pergunta seguinte: “ Sabes o que resulta? Para conseguir que o bebé me deixe fazer alguma coisa? Ligar o aspirador ou o secador do cabelo!   
E antes que ela despachasse a próxima questão eu disse: “Rita há quanto tempo não dormes?!”
Ela respondeu: “dormir? Mas dormir como? Dormir deitada na cama? Sentada no sofá? Em pé? No chão? Na mesa? Na rua? A conduzir? Dormir sozinha? Dormir como? Sabes que mais? Nunca me deixas falar, vou embora. Falamos quando estiveres mais bem-disposta!”
E ficamos assim, acreditando, em silêncio, que iríamos sobreviver!

OS SEGUNDOS TRÊS MESES
Já desistimos de combinar ou planear. Trocamos o sujeito e o verbo na frase “se Deus quiser” por “se o Bebé deixar”.
O que sabemos, neste momento, é que estamos nas mãos deles. Aqueles sorrisos matreiros já nos convenceram e agora é rezar para que eles não nos façam muito mal.
Continuamos sem conseguir tomar banho e sem dormir, mas já não nos importamos. Nesta fase temos mais para limpar porque eles começam a comer as primeiras sopas e adoram mexer nela e depois passam a sua mão em todas as superfícies, planas, inclinadas e humanas, às vezes despejam-na outras vezes cospem-na. Já me aconteceu perguntarem o que tenho no cabelo e antes de dar a reposta pensar quais foram os ingredientes da sopa.
E com as primeiras comidas os cocós ficam insuportavelmente mal-cheirosos. E apesar disto, as conversas das mães continuam a ser sobre o cocó. A cor, a consistência e a frequência.
 Os dentes começam a nascer, e se não nascerem nesta altura não se preocupem, eles vão acabar por nascer e vocês irão sentir esse crescimento na vossa carne e pele. Mas vão por mim quanto mais tarde melhor! Os dentes, a fala, e as inconveniências.

DEPOIS DOS SEGUNDOS TRÊS MESES
Vem a pressa de andar, de falar, de correr, de pintar, de cantar, de contar….
E acabou-se o pouco sossego que ainda tínhamos!
Nesta altura regredimos na linha da evolução e deixamos de andar erectus para andar curvados. Curvados para os segurar, para brincar, para apanhar as coisas que deixam desarrumadas, para limpar todas as superfícies que eles sujam. Curvados porque a vida está a dar-nos uma lição.
Depois vêm as birras, as chantagens, as negociações, o drama, as manias, os gritos e a escolha de má música. Tudo motivos para deixarmos de lutar pela ilusão de que temos uma vida, não temos. A nossa vida passou a ser deles.


Eu e a Rita voltámos a sair. Mas nas primeiras vezes que saímos a Rita e eu falávamos do nosso dia-a-dia, das rotinas, dos horários. As nossas saídas eram uma seca, e percebemos que a nossa amizade estava por um fio. E ponderamos falar sobre o que era mais importante na vida:
- Rita não consigo falar da actualidade porque só há pouco tempo descobri que o Ramalho Eanes não é o Presidente da República! Queres falar sobre o quê?
- Desde que não falemos de cocó e roupa para crianças pode ser qualquer coisa.
- Estou a pensar comprar a Bimby…
- Não, também não podes falar disso!
- Rita a birra que ele fez ontem para tomar banho?
- Estou a levantar-me, dois minutos e desapareço!
- Contei-te que encomendei uns livros na Amazon e que foi um rapaz que os foi entregar? Giro, Rita, muito giro. Ele fez-me perguntas sobre os livros, acreditas?
A Rita abraçou-me e disse: “nós vamos conseguir! Ainda há esperança!” 

O que acontece com as relações quando aparecem as crianças tem muito que ver com as crianças e com os seus progenitores. Costumo dizer que o melhor do mundo são as crianças e o pior do mundo são os pais das crianças.  
Da minha curta, mas intensa, experiência a fugir da morte apercebi-me de que com filhos, descobrimos que a bipolaridade não é uma doença; que podemos estar sempre cansados sem estarmos com anemia; que não existem tempos mortos; e que a chuva pode fazer bem às plantações, mas não faz bem às relações.
Passo a explicar,
1) a questão da bipolaridade, acordamos a pensar em chegar rapidamente ao trabalho para descansar (Querido Chefe não sei se acompanha este manual, e desculpe a forma como vou colocar isto, mas qualquer trabalho é canja perto de uma birra, ou amuo de miúdos logo pela manhã), e até chegar a esse momento já chorámos, gritámos, rimos, mudámos de roupa, limpámos o leite derramado em cima da mesa, pusemos alguém de castigo… e ainda só passaram 30 minutos desde que acordámos. E somos sempre a mesma pessoa, mas a oscilar entre extremos.
Isto não fica melhor com os anos, porque se há coisa que já aprendi é que amuos e birras pioram com o crescimento. Deviam conhecer alguns dos adultos com quem confraternizo;
2) O cansaço instala-se e quando nos apercebemos acabámos de concordar que sim, mas não sabemos no quê, e podemos ter concordado em ser cúmplices no assassinato de alguém. O cansaço leva-nos ao desespero. Só queremos deixar de ouvir aquela voz ecoando: ”Posso mãe? Posso?”
Leva-nos a adormecer nos sítios mais estranhos e nas posições mais incómodas. A cair para o lado exaustas. E quando estamos neste ponto não há medicação que nos salve. Precisamos de arranjar alguém em quem despejar esse cansaço e a frustração? Onde é que está o pai afinal, quando mais precisamos dele?

3) Porque só de pensar que o mau tempo nos vai obrigar a ficar em casa, e que eles irão gastar as suas energias em casa, a desarrumar, a gritar, e a exigir… só de pensar… fico com arrepios e suores frios!
Obviamente que com a bipolaridade ao rubro não existem espaços para tempos mortos. A nossa vida é uma montanha russa, com livre acesso ao choro, às queixinhas, e às exigências.
Rapidamente deixamos de ter vida própria para termos que viver a vida deles. Festas, atividades, dias em casa de amigos, saídas, trabalhos de grupo, até ao dia em que estes ingratos já não nos querem por perto.
Descobrimos a poluição sonora que hoje se faz e que os nossos filhos andam a ouvir. As roupas que eles querem usar e as cores das mesmas. Ouvimos, sem qualquer remorso, que nunca serão do Futebol Clube do Porto. E por aí adiante… Desgosto atrás de desgosto. Como sobreviver?
Não é fácil.
Falei com a Rita sobre diversas preocupações que me assolavam:
 “Rita como é que vou educar uma criança?”
E ela tranquilizou-me: “é para isso que as Escolas servem!”
Eu: “ Rita e se esta criança não gostar de mim?”
Rita: “ é possível, conheço muitas pessoas que não te suportam, mas nessa altura já podes beber!
Eu: “Rita acho que nunca irei a aniversários de crianças. E não é porque não me convidem é porque não costuma haver álcool nessas festas…”
Rita: “Estás parva? Esquece o álcool, foca-te nas vistas! Já viste a quantidade de homens giros que circulam por lá?”
Eu: Não, nunca reparei! Aliás esses adultos assustam-me, mais do que os dentes num recém-nascido!

Para sobreviver são necessárias três coisas:
Rapidez, paciência e sentido de humor! Basicamente tudo o que temos vindo a treinar.
Rápidas a segurar tudo o que pode cair: bebés, biberons, copos, sacos, pessoas, expectativas, surpresas, fraldas, calças, cabelo, dentes, peito, entre outras coisas. Rápidas a recuperar de doenças, desgostos, desilusões, festas. Rápidas a pensar, a responder, a defender, e a arrancar.
Paciência porque enquanto “o pau vai e vem folgam as costas”. Porque o melhor conselheiro continua a ser o tempo. Paciência porque sem ela deixamos de fugir à morte e acabamos por falecer ou padecer de uma maleita que, até pode nem nos levar a esticar o pernil, pode somente deixar-nos muito doentes e/ou muito sós.
Sentido de humor porque rir continua a ser um excelente remédio. Rir porque o bebé é o oposto daquilo que imaginávamos; rir porque já dissemos várias vezes “se fosse comigo” e nunca esperámos que realmente nos acontecesse. Rir porque não fomos o suficiente rápidas ou pacientes. Rir porque chorar não queima tantas calorias, nem mexe com tantos músculos.
E rir porque estes seres incríveis, os filhos, são uns sacanitas que nos dão cabo da cabeça, mas que nos enchem o coração, e aqui para nós, estes sacanitas até têm piada!

Vemo-nos no próximo mês!