quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

estória 4: rotina

São sete horas da manhã. Já o sabia antes do despertador tocar, no entanto esperei que ele tocasse para sair da cama. Automaticamente puxei para trás o lençol e o cobertor que me cobriam, e saí da cama.

Como é hábito sentei-me na sanita e pensei na roupa que iria vestir. Abri a torneira da água quente e rapidamente me pus debaixo do chuveiro. A água que caía do chuveiro lavava a alma e o corpo e levava consigo a vontade e a força.

Enxuguei-me e fui directa ao guarda-roupa, vesti-me, e de seguida, como é habitual, fiz a cama.

Às sete horas e quarenta minutos estava a sair de casa, e como sempre o faço, fui à cafetaria que fica na frente da minha casa, tirei o meu copo dentro da mala e recarreguei com o café da manhã.

Dei comigo com metade do caminho de sempre percorrido, a ver as mesmas pessoas, os mesmos cães, e a pensar que “afinal não sou eu a única pessoa de hábitos”.

Trinta minutos depois estava no trabalho, com o cumprimento de sempre: Bom dia, mais um dia …não é verdade?!”. Não precisava de esperar para ouvir a resposta. E para que ouvi-la?!

Enquanto o elevador me levava até ao meu piso, pensava “será que alguém daria pela minha ausência se faltasse?” “Se mudasse de caminho e de hábitos alguém iria notar?” E enquanto me questionava telefonava à minha mãe. Estava tudo bem com ela, estava de saída para o ginásio com as amigas, não tinha tempo para mim, no íntimo ficava contente com esta indisponibilidade, não iria telefonar a outra hora, e ela não iria retribuir o meu telefonema, afinal não havia nada para dizer.  
Na sala de reuniões, à mesma hora de sempre, reunimos e estabelecemos as tarefas para executar naquele dia. Patrick, o jovem indiano, interrompeu, sem causar estranheza porque como era habitual todos esperávamos por ele, e pelas sandes que ele distribuía, não podia ser de outra maneira…
A hora do almoço era a parte mais desagradável do dia, todos tinham alguma coisa para contar, para partilhar, um a querer mostrar que estava mais vivo que outro. Cada um, à sua maneira a tentar exibir a sua vida e como ela era colorida e preenchida. Ai que aflição! Era a parte do dia que mais demorava a passar. Uma hora, uma simples hora em que o barulho não me deixava pensar, ou simplesmente não me permitia não pensar.
O dia de trabalho terminava às dezoito horas com um simples adeus, ou até amanhã. Ocasionalmente convidavam-me para sair, beber um copo, ir ao cinema, ou simplesmente fazer qualquer coisa. Nunca aceitei, esta era a minha vida, a minha opção.   
Seguia o meu caminho, de sempre, até casa, passava no supermercado, trazia comigo o essencial, queria chegar a casa o mais rápido possível.

Era quando colocava a chave na porta que o dia começava. Ouvia a música de começo do dia, só Beethoven me compreendia, a 5ª sinfonia chegava ao meu coração como jamais alguém ou alguma coisa chegaria. E enquanto preparava o jantar, como sempre o fazia e o iria fazer, pensava invariavelmente que amanhã devia mudar de rotina, e com esses pensamentos acabava por adormecer.

Não era autismo, não o sabia fazer de outra forma, deixava um porém para amanhã…
E o amanhã, rapidamente se tornava hoje. 
São sete horas da manhã. Já o sabia antes do despertador tocar, no entanto esperei que ele tocasse para sair da cama.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

estória 3: ... se...

Limpava o pó a uma fotografia. Fiquei presa naquele momento, ao momento que a foto capturou e cristalizou.

Peguei naquele porta-retratos e pousei-o no sofá, fui até à cozinha, aqueci água e enquanto a água aquecia fui até ao quarto, fui à procura da manta que tinha naquela foto. Não estava na gaveta, não estava no baú, onde raio a havia metido!?  

Já tinham passados tantos anos, a roupa que vestia na foto tinha acabado por dá-la afinal já não me servia. Os anos passam e os quilos a mais ficam, as varizes que aparecem, as rugas que vem relembrar a juventude perdida, essas não consigo disfarçar como faço com os cabelos brancos.

A chaleira apitou, e trouxe-me à realidade, a água estava quente. Fui até à cozinha e coloquei a saqueta do chá de frutos silvestres na água quente. Regressei ao quarto e decidi procurar aquela manta numa caixa que estava escondida no guarda-roupa. Uma caixa cheia de recordações, de memórias. Talvez a encontrasse lá. Fui buscar o escadote e puxei a caixa, tirei o laço que a fechava, e de seguida retirei a tampa da caixa, a manta estava no topo. Peguei nela e dirigi-me à cozinha, enrolei-me na manta e fui até à sala, levando comigo a chávena de chá.

O chá pareceu-me a melhor das companhias para navegar no passado. Cruzei os pés, envolta na manta, coloquei o porta-retratos no meu colo e segurei a chávena nas minhas mãos, envolvi-a entre as minhas mãos.

Olhei com muita atenção aquela foto e tentei relembrar todos os pormenores, foi no inverno, tínhamos ido passar o fim-de-semana naquela pousada, chovia e tu disseste que com aquela chuva o mais longe que poderíamos ir, era até onde os nossos olhos nos pudessem levar. E começamos a andar, a observar, foi nesse momento que sentados na cama de frente para a janela de vidros, que iam de parede a parede, tu te levantaste e foste buscar a máquina fotográfica e colocaste as tuas pernas à volta da minha cintura, sentados na cama acomodámo-nos para tirar a fotografia, esta que está neste porta-retratos. Não tem pó, mas parece que já foi há tanto tempo. Depois daquela foto e de outras tantas falhadas, acabamos um nos braços do outro, enrolados nos lençóis e nas promessas de um futuro.

Enquanto bebia o chá aquela água quente, com sabor a frutos silvestres, fazia pressão para sair em forma de lágrima. Onde foi que perdi aquele sentido, onde foi que tudo se perdeu?

O telefone tocou, acordei daqueles momentos, imobilizada desde que os meus olhos entraram em contacto com aquela foto, devia ter passado uma meia hora e eu fiquei imobilizada não consegui levantar-me. Que raiva o telefone continuava a tocar e eu não tinha vontade de me mexer. Porque é que o tempo não parou no momento da foto.

O telefone parou, levantei-me, tinha congelado, não sei nem como nem porque, não senti o frio a chegar. Tinha que ir fazer mais chá, para aquecer.

O telefone tocou novamente, fui até à cómoda e peguei no auscultador:

-Estou?

-Estou, querida! Não atendeste… Pensei que tivesses saído.

-Não, não. Adormeci e quando cheguei perto do telefone, já tinham desligado. Eras tu? Deve ser importante ligaste novamente…

-Sim, quero avisar-te que não deves fazer jantar para mim, vou fazer serão. Não esperes por mim não sei a que horas chego…

 O silêncio aconteceu.

Desligaste, ou já estavas desprendido.

Quando foi que aquele momento da foto deixou de fazer sentido?! Há tanto tempo que deixei de esperar por ti, que já me esqueci. Não adianta limpar o pó, não adianta recordar. Vou tomar banho. Vou sair. Não tenho porque esperar. Vou descobrir algo que goste de fazer. Vou viver a vida que ainda tenho.

Pode ser que ele volte cedo e ainda podemos conversar. Pode ser…

Vou só fazer um chá! Temos tanto para conversar para acertar.

Ele não veio mais cedo, mas eu esperei por ele. Estava acordada quando ele chegou, mas não falei. Ele sabia que eu estava acordada, e que esperei por ele, mas também não quis falar. E como éramos os dois a querer aquele silêncio, acabámos por adormecer, ele até o despertador tocar e eu até ele sair de casa.  

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

estória 2: O Medo Absurdo

Acordei com uma enorme dor de cabeça. A noite passou, mas não passou por mim. Há noites, madrugadas, dias assim, parece que não somos nós que preenchemos o tempo, mas o tempo ocupa-se de nos preencher.

Esta dor de cabeça que me proíbe de pensar, de sentir o que sinto e até de viver a minha vida.
Disse-lhe “se essa é a tua decisão, aquela que te irá deixar feliz, fico feliz por ti e aceito-a”. Mas que parvo que fui, não tinha que aceitar ou recusar quando nada me foi pedido, só fui informado.

Havia lido um daqueles livros repletos de “lugares comuns” e que dizia que "o amor liberta", tive naquele momento a oportunidade de mostrar que aquela frase, que achei extraordinária, era praticável. Resignado pensava: "então amar então é isto?".
Escusado será dizer que não consegui dormir.
O que é que se passa comigo? Deixo-a ir assim sem lhe dizer como ela foi egoísta? Ou serei eu que estarei a ser egoísta? Com medo de ficar só? Durante aquela noite fiz e refiz aquele diálogo e na minha cabeça dizia-lhe tudo aquilo que me ia na alma, mas não passaram de cenários imaginários. Tive frio e calor, sede, faltou-me o ar. Sim, tive medo.

A minha cabeça que teimava em exibir-se, pensava: "EU" era só cabeça ou era só dor?!

Com quem falar, o que me haveriam de dizer. Às vezes parece que eu e todos aqueles que me rodeiam somos a mesma pessoa, lemos os mesmos livros, utilizamos os mesmos clichés. Talvez passemos demasiado tempo juntos, ou talvez tenhamos medo de dizer o que pensamos e sentimos para não expor as nossas vulnerabilidades, evitar cansar os nossos amigos com angústias, problemas...

Evito passear pela casa, existem demasiadas recordações.

Ontem, antes daquele fatídico jantar, ao sair de casa olhei para o meu reflexo no espelho e senti-me bem. Continuei a sentir-me bem até à sobremesa, apesar do silêncio durante o jantar, ou da conversa de circunstância, para mim tudo estava bem. Hoje não quero sentir pena de mim, não quero ver aquele espelho, não me quero ver!

O telefona toca, será ela? Mudou de ideias? Telefona para saber se estou bem?

“-Estou?
-Sim, mãe está tudo bem. Acordei agora! Não, estou sozinho. Sim, já sei que não concordas com estas relações modernas. Claro que sim, claro que vamos lanchar, sim. Ao mesmo sítio de ontem? Sim gostei, mas também gostei muito do café da semana passada. Sim, dá-me uma hora e estarei aí.”


E estarei!